sábado, 14 de dezembro de 2019

Contos da Sétima Esfera (Mário de Carvalho)

Contos da Sétima Esfera. Não são das mil e uma noites nem histórias do outro mundo - ou será que são? São certamente contos onde o improvável domina e em que cada história, da mais breve à mais extensa, contém em si a matéria de que são feitas as surpresas. São histórias de gente bizarra - e de circunstâncias bizarras. Mas é precisamente isso que as torna tão interessantes.
Divide-se em três partes este conjunto de contos. E sendo o livro dividido em três partes, em três partes também se dividirá este texto.

I

Agade e Nimur dá início às hostilidades narrando a breve história de um rei que, tendo profanado a sua cidade, se vê castigado por uma intervenção divina... intervenção está que será, por sua vez, vingada. Muito breve, mas com um embalo estranhamente cativante, este pequeno conto em tons de lenda antiga abre da melhor forma as portas destes intrigantes Contos da Sétima Esfera.
Do deus memória e notícia fala da manisfestação de um novo deus - o verdadeiro, claro! - cujo poder traz todo o tipo de benesses... e respectivos preços, mas cuja destruição pode ainda assim ser consumada. Relativamente extenso, mas sempre cativante, sobressai principalmente pelos dois aspectos: pelo tom quase bíblico da narrativa, pontuada também pelo registo de pretensos cronistas e pela forma como põe em evidência o contraste entre fé e racionalidade.
Segue-se A simetria, história de um trono sucessivamente usurpado, de ressentimentos transformados em mortes macabras e de uma estranha simetria chamada justiça poética. Empolgante e ao mesmo tempo enigmático, cativa acima de tudo pela sucessão de acontecimentos intensos, bem como pela concepção de justiça feroz e implacável subjacente a esta sucessão de destinos.
O desafio fala de um homem que, inspirado por uma história que ouviu em tempos, escolhe colocar acima de tudo a defesa da sua honra, com consequências desastrosas para a missão que lhe incumbia cumprir. Com aura quase que de história das mil e uma noites, e contendo também uma lição algo sinuosa a descobrir, trata-se de um conto bastante cativante em que, embora o protagonista não seja particularmente memorável, a ideia que o move é difícil de esquecer.
Almocreves, publicanos, ricos-homens e ciganos encerra a primeira parte com uma história de encontros casuais de consequências imprevistas e que se prolongam para lá do tempo numa linha temporal difícil de definir. E difícil de definir é uma boa expressão para descrever este conto, pois, pese embora o embalo dos acontecimentos que torna a leitura estranhamente empolgante, no fim são muitas as perguntas que ficam sem resposta e acaba por ser o mistério a alma da história.

II

Do problema que o capitão Passanha houve de resolver, quando em circunstâncias atribuladas, comandava o Maria Eduarda no estreito de Malaca e do bom despacho que lhe deu com a cooperação de todos ou O Enigma da estátua mutilada encontrada nos fundos de Shandenoor, história de longo título, mas relativa brevidade, fala de uma batalha naval que deixa um morto incompleto e da solução encontrada para lhe dar um funeral condigno. Bastante caricato em termos de premissa, não deixa de ser, ainda assim, especialmente cativante pela naturalidade com que esta ideia bizarra ganha forma.
Definitiva história do Professor Pfiglzz e seu estranho companheiro apresenta-nos um anjo da guarda que, após se tornar visível, é seriamente maltratado e posto à prova pelo seu protegido. Até ao dia... Bastante extenso, mas sempre cativante, parte de uma premissa ligeiramente bizarra - um anjo da guarda que se torna visível a todos! - e vai ganhando intensidade à medida que passa de protector a vítima, abrindo assim caminho para uma mudança de destino. Cheio de surpresas e com um final muito forte, é provavelmente um dos melhores contos do livro.
Segue-se Que todos ficassem bem..., história de uma atribulada viagem de barco e da aparição de um deus que exige um sacrifício. Também bastante extenso e bastante descritivo, avança a um ritmo bastante pausado, mas não deixa, ainda assim, de ser uma leitura interessante, primeiro pela estranheza de toda a situação e depois pela mistura de valor e importência que envolve o protagonista.
As três notícias do diabo falam precisamente disso, de três confidências feitas pelo diabo sobre o futuro de três homens diferentes. Um pouco distante, talvez por ser contado como a história de uma história contada a alguém, deixa sobretudo na memória a visão de três catástrofes tão dramáticas quanto bizarras, o que acaba por ser, por si só, uma surpresa.
O bólide conta a história de um ditador que queria a Lua, mas acabou por provocar apenas a sua queda. Não é a história da queda do ditador, queda essa afirmada logo de início, mas a das suas bizarras aspirações, o que faz com que, mais do que de dramas e emoções, seja, acima de tudo, uma história caricata e divertida.
Segue-se O Caminho de Cherokee Pass, história de uma dica oportuna surgida no meio do nada e que acaba por se revelar frutífera... das mais inesperadas formas. Com o seu ambiente de história de pistoleiros e um enigma nunca totalmente resolvido, cativa acima de tudo pela aura de mistério que envolve o misterioso fornecedor da dica. Além, claro, das peripécias que este tão friamente se digna contar.
O Contrato conta a história de um falso pacto com o diabo que talvez não seja assim, afinal, tão falso. Só que com nomes diferentes... Provavelmente o melhor conto do livro, trata-se de uma história envolvente, com a medida certa de mistério e de sobrenatural associada a uma visão tristemente certeira da forma como certos poderosos vêem os seus subalternos. Muito bom.
E é com A pele do judeu que a segunda parte termina, história de um estranho mapa traçado em pele humana que promete conduzir à prata, mas tem contornos de ruína. Relativamente pausado, mas muito intrigante na forma como o protagonista é conduzido, marca principalmente pelo enigma de Magda, que, embora nunca totalmente resolvido, faz com que todo o percurso esteja envolto em mistério.

III

O desdobramento, breve história de um ritual que resulta em multiplicação, consegue, na sua relativa brevidade, introduzir as medidas certas de mistério, misticismo e um estranhamente humano toque de confusão que faz com que, embora quase tudo fique sem resposta, tudo pareça também estranhamente adequado.
Também relativamente breve, A espada japonesa fala de uma espada herdada por um monge e que traz consigo um legado bastante mais sangrento do que as meras mortes do passado. Intrigante, misterioso e intenso, apesar da brevidade, é um daqueles contos que provam que uma história não precisa de ser grande para ser uma grande história.
A autora dá vida a uma imagem no espelho, fazendo dela autora de uma obra literária desconhecida, mas familiar, à dona do corpo que reflecte a imagem. Um tanto bizarro e bastante intrigante, mais uma vez deixa tudo sem resposta, mas de uma forma que faz um certo sentido.
Segue-se O circuito, que fala da estranha mancha na parede de um quarto e de como os seus movimentos parecem pressagiar uma espiral ominosa. Como habitual, também nesta história há muito que fica envolto em mistério, mas não deixa de ser bastante fascinante o paralelismo entre a espiral da mancha e o círculo da vida.
A passagem é um daqueles contos em que o título diz tudo. É de uma passagem que se trata, bizarra e inexplicável. E, à semelhança dos contos anteriores, também aqui se trata de um fenómeno improvável, que, sem nunca ser realmente explicado, consegue proporcionar uma leitura intrigante.
Coleccionadores fala de um mapa antigo que se revela ser uma mera falsificação, e depois... depois revela-se também algo mais. O mais surpreendente neste conto é a forma como, de um duo de protagonistas que não são propriamente a epítome do carisma, o autor consegue fazer surgir um conto tão empolgante e com um final tão eficaz.
O sonho fala da visita de uma estrangeira a Portugal que traz consigo sonhos tenebrosos vindos de um passado distante e capazes de uma nitidez... devoradora. Também um dos contos mais marcantes do livro, prende da primeira à última frase, não só pelas estranhas ligações entre passado e presente, e pelo final dramático, mas também pela já habitual forma como o enigma nunca realmente explicado acaba por fazer o habitual sentido.
Segue-se O fim, que não é o último conto, mas é realmente uma história do fim... do mundo, claro! De um fim do mundo previsto e anunciado, mas encarado com uma serenidade estranhamente filosófica. Afinal, ninguém morre quando morrem todos... E é esta estranha ideia, mais do que o avolumar da tragédia iminente, que fica na cabeça uma vez terminada a leitura.
E é O emprego o derradeiro conto, história de três homens de vidas atribuladas, funções acolhidas e depois perdidas e um certo acaso meio sobrenatural que faz com que tudo vá mudando. Qualquer dos três protagonistas justificaria um conto só para eles, mas é particularmente interessante ver que, embora os seus caminhos só se cruzem num ponto, as diferentes histórias parecem complementar-se.

Terminada esta leitura, o que fica é, em suma, a imagem de toda uma caricata sucessão de aventuras feitas do bizarro e do sobrenatural, de mistérios e de perguntas sem resposta e, ainda assim, estranhamente fascinantes. São realmente Contos da Sétima Esfera... ou de outro mundo? Talvez. Mas muito interessantes, sem dúvida.

Autor: Mário de Carvalho
Origem: Recebido para crítica

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