segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

O Castelo dos Animais, Vol. 3: A Noite dos Justos (Xavier Dorison e Félix Delep)

A vitória foi amarga, e as conquistas alcançadas pagaram-se em sangue e dúvidas. Agora, Miss B pergunta-se se valeu a pena e os outros animais não sabem bem o que fazer. Afinal, Sílvio mantém o poder e quase tudo permanece igual. Mas a luta não se esgotou e, se Miss B conseguir superar os seus próprios medos e mobilizar os seus amigos, talvez o caminho para a liberdade se possa finalmente abrir.
Ao terceiro volume desta surpreendente e emotiva história, torna-se ainda mais vincado o que já de início era evidente: que esta história de animais é muito mais do que isso. São, aliás, muito claros os paralelismos com as realidades do mundo, as lutas, os regimes autocráticos e as revoluções que o defrontam. E construir este contraste com estes animais como protagonistas é contrabalançar com uma enternecedora dose de inocência um leque de questões de grande relevância.
Outro aspeto a salientar é o crescendo de intensidade que marca o ritmo desta série. À medida que as lutas se tornam mais complexas, também os riscos se tornam maiores e as consequências mais pesadas. E, assim, não faltam momentos tensos, picos de emoção e rasgos de pura empatia, pontilhados por uma saudável dose de inocência e de humor a recordar o porquê de se continuar a lutar.
E, claro, importa realçar de novo a beleza do aspeto visual, sobretudo nos cenários, e a poderosa expressividade que planta todo um leque de emoções nas feições destas personagens. Os diálogos são poderosos, é verdade, mas muito é dito também numa simples expressão.
Nova luta, nova aventura, nova etapa na revolução, o que fica desta nova história é, acima de tudo, a sensação de um novo passo rumo ao culminar da liberdade. É essa sensação de proximidade com o caminho destas personagens que torna tudo tão intenso. Tão memorável. Tão belo.

domingo, 1 de janeiro de 2023

O Primeiro Erro (Sandie Jones)

Alice sofreu uma grande perda, mas, apesar de as marcas terem ficado, parece ter reconstruído a sua vida. Tem um marido que a apoia, duas filhas a quem ama acima de tudo e uma carreira de sucesso. Ainda assim, no momento em que o seu negócio parece estar à beira de uma grande evolução, estranhos acontecimentos começam também a surgir. O marido, que sempre lhe pareceu fiel, começa a ter comportamentos suspeitos, e tudo indica que possa andar a ter um caso. E é na sua grande amiga, Beth, que Alice procura conforto. Só que também Beth tem os seus segredos obscuros.
Parte da grande força deste livro está na fina linha que separa a harmonia perfeita do colapso absoluto, com base numa sucessão de segredos e suspeitas. E isto implica necessariamente uma boa medida de reviravoltas. O que acontece, portanto, é que a história arranca a um ritmo relativamente pausado, de harmonia familiar sacudida por pequenos mistérios, e vai gradualmente ganhando intensidade, culminando num final intenso e cheio de surpresas.
Nem tudo é imprevisível, importa dizer, e os suspeitos são relativamente fáceis de identificar, mas também isto tem um efeito curioso.  É que, mesmo quando as identidades se tornam evidentes, há sempre surpresas à espreita, seja nos motivos, nas relações ou no inevitável confronto.
Finalmente, importa destacar um estilo de escrita relativamente direto, mas bastante eficaz no que toca a transmitir emoções e, sobretudo, o estado mental das personagens. O desconcerto, quando surge, é quase tangível, e o mesmo se aplica ao impacto psicológico dos golpes, o que resulta numa leitura mais envolvente e mais próxima.
Relativamente pausado, de início, mas com um crescimento sólido e uma envolvência constante, trata-se, em suma, de um livro que prende aos poucos para depois surpreender até ao fim. Vale, pois, a pena conhecer esta história. 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Balanço de 2022

2022. O ano da correria da boa. Cheio de desafios, de atividade e de coisas em geral com que me ocupar. O que significa que a leitura foi mais reduzida que o habitual: 115 livros ao todo.
Ainda assim, não faltaram leituras marcantes, como não podia deixar de ser. E não podia deixar de se cumprir a tradição de partilhar os favoritos do ano. Assim, sem mais demoras, eis a lista:




Conhecem-nos? Leram? Gostaram? Contem-me tudo!

E, entretanto, sem propósitos específicos, mas com a vontade de sempre, fica a certeza: mais correria, menos correria, continuaremos a ver-nos por cá. Até para o ano!

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Saga - Volume Dez (Brian K. Vaughan e Fiona Staples)

Passaram anos desde que um acontecimento drástico mudou a vida de Hazel e da mãe, e foram muitas as decisões difíceis que tiveram de tomar para sobreviver. Agora, o caminho tornou-se ainda mais ambíguo, a luta pela sobrevivência exige precaução e desconfiança e os contactos feitos pelo caminho escondem também os seus próprios segredos. E Hazel vai crescendo, a vida vai continuando.. e a cada nova esperança sucede uma nova perda.
Após a conclusão devastadora do último volume, a que se seguiu um longo hiato, é impossível não começar por referir o poderosíssimo impacto emocional deste regresso. Esperanças que ficaram veem-se reduzidas a pó, o impacto das perdas é quase palpável e, mais uma vez, o caminho vai evoluindo entre oscilações de esperança e devastação - com particular destaque para o final, naturalmente, mas com uma presença vincada ao longo de todo o percurso.
O facto de também na história terem passado anos, tem também outro desenvolvimento interessante: traz consigo novas personagens, o crescimento de algumas já conhecidas e um trajeto mais concentrado do que noutros volumes. Há, pois, mais entradas em cena do que reencontros, com a história mais centrada em Hazel, mas sem perder de vista o contexto global. E há ainda uma presença secreta, maioritariamente invisível, mas subjacente a grande parte dos acontecimentos: Marko.
Mantêm-se, de resto, todas as qualidades dos livros anteriores: a expressividade dos rostos, a exuberância e a diversidade das personagens, a abundância de cor e de cenários singulares e um delicioso equilíbrio entre drama e ação, emoção transbordante e humor certeiro, inocência e desolação. Tudo convergindo para uma aventura viciante cujo potencial parece ainda bem longe de se esgotar.
Regresso demorado, mas fortíssimo, com a mesma vida abundante, a mesma intensidade irresistível e a mesma emoção devastadora, este décimo volume é Saga em toda a sua glória,  correspondendo integralmente às expetativas e prometendo ainda mais para o que virá.  Belíssimo, poderoso, memorável, é prodigioso, em suma. Como sempre.

sábado, 24 de dezembro de 2022

Feliz Natal


Não faltem neste dia a luz e a magia,
O amor, a esperança e o conforto das memórias,
Com as palavras que sempre são o nosso refúgio 
E a promessa de novas histórias ao virar da próxima página. 

Feliz Natal. 

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Bug - Livro 3 (Enki Bilal)

Cada vez mais assolado por mistérios, conflitos e ideologias em colisão, o mundo vai-se tornando cada vez mais caótico. E, no meio de tudo, mantém-se o elusivo Kameron Obb, cujo parasita interior lhe confere poderes singulares, pesadelos e febres e a cobiça de todos os grupos em conflito. É preciso encontrar respostas... e a liberdade possível. Mas cada passo de Obb traz novos problemas. E novas perguntas a precisar de resposta.
Parte do que mais fascina neste terceiro livro é também o que mais desconcerta: a forma como cada novo passo traz novas complexidades - ideológicas, políticas e principalmente biológicas. E importa desde já dizer que não é ainda aqui que se encontram todas as respostas. Muito pelo contrário: o mistério adensa-se, a teia torna-se mais intrincada e são infinitas as possibilidades que ficam em aberto para o que se seguirá.
Dito isto, continua a ser fascinante visitar este mundo em degradação, conhecer as suas forças discordantes e acompanhar o percurso de um protagonista tão poderoso quanto vulnerável, com quem todos querem fazer grandes coisas... mas a partir de uma posição de subjugação. Além disso, das inúmeras forças em conflito emergem múltiplas facetas da atualidade, sendo certo que algumas deixam sentimentos contraditórios na abordagem, mas nunca deixam de ter os seus pontos de interesse.
Finalmente, a nível visual, sobressaem dois pontos: a precisão do caos, que ganha especial vida nos cenários, mas também nas visões mais interiores do protagonista; e os jogos de sombras, que salientam não só a aura de mistério, mas também a promessa de decadência que parece envolver este futuro.
Enigmático, complexo e cheio de intensidade e mistério, trata-se, em suma, de um livro tão desconcertante quanto cativante. E deixa tudo em aberto, é certo, mas não deixa de ser mais uma bela etapa nesta fascinante aventura. Que vale bem a pena continuar a seguir. 

sábado, 10 de dezembro de 2022

Mar da Tranquilidade (Emily St. John Mandel)

Um jovem exilado da alta sociedade no início do século XX, que parte para se encontrar ou apenas existir. Um músico que fez sucesso graças, em parte, aos vídeos da irmã morta. Uma autora que escreveu sobre uma pandemia mortal pouco antes de ser também ceifada por uma pandemia. E um investigador que percorre o tempo em busca de explicações para uma anomalia que pode alterar perspetivas sobre a natureza da vida. Todos estes fios se entrelaçam e convergem para lembrar a mutável natureza da vida e as infinitas formas da desolação.
Embora seja, no essencial, uma história independente, uma das coisas que importa salientar sobre este livro é que terá certamente um impacto muito maior tendo lido anteriormente Estação Onze e O Hotel de Vidro, não só pelas personagens em comum, mas sobretudo pela viva sensação de que tudo pertence a uma mesma teia de histórias e de mundos.
Este impacto sai ainda mais realçado pelo facto de ser um livro relativamente breve, em que há tanto de marcante no que é dito como no apenas sugerido ou vislumbrado. É, aliás, interessante a forma como, com um aprofundar bastante menor dos elos pessoais, a autora consegue criar com igual mestria a sensação de melancolia e desolação que tão tangível é nos livros anteriores.
Há ainda outro contraste poderoso. Sendo embora um livro com muito a acontecer, e com uma voz relativamente concisa, o tom tem o seu lado introspetivo, um pouco como se cada pequena coisa apelasse a uma contemplação de algo maior: a vida, o tempo, a natureza humana, o futuro. E há ecos que se repercutem não tanto por acontecimentos específicos, mas mais por uma frase, uma imagem, uma impressão.
Mas há mistério. E respostas. E, a haver algo de expectável neste livro, é que o final jamais poderia ser limpo e linear. Não é, de facto. Deixa perguntas sem resposta. Mas, atendendo ao percurso, é mais do que natural que assim seja: é perfeitamente adequado.
Relativamente conciso, na escrita e nos desenvolvimentos, mas com um poderoso equilíbrio entre as suas múltiplas facetas e a visão que delas emerge, trata-se, em suma, de um livro marcante e memorável,  tanto no que diz como no que inspira. E é dessa matéria que são feitas as grandes leituras.

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Madame Bovary (Daniel Bardet e Michel Janvier)

Criada num convento e depois transportada para um casamento em que o que julgava ser romance se tornou tédio, Emma Bovary aspira a algo mais além do quotidiano aborrecido. Mas o marido não tem ambições e, movida por um sonho vago, Emma deixa-se levar por paixões proibidas. Procura amor noutros braços, procura conquistá-los para sempre... sem saber que caminha a passos largos para a ruína.
Sendo uma adaptação de um romance muito mais extenso, é inevitável comparar a relativa concisão desta adaptação com o texto mais vasto que lhe serve de base. E é interessante notar que, embora muito mais sucinta e cingida ao essencial, esta história não perde nenhuma da intensidade, apesar de tudo evoluir de forma muito mais rápida.
Outro contraste interessante é, claro, o da parte visual, já que esta versão dá rostos às personagens e cenários às suas experiências. E dá sobretudo expressividade, principalmente no caso de Emma, em que as emoções que tanto causam e tanto movem surgem claramente refletidas nas suas feições.
Claro que, para quem tiver lido o original, a história já é conhecida, o que talvez atenue ligeiramente o impacto desta progressiva caminhada para a ruína. Ainda assim, reencontrar a história, nesta nova versão condensada e nova, salienta não só o percurso da protagonista, mas também a visão da moral e dos costumes que é também parte do seu âmago. E não falta material para reflexão ao longo de todo esse percurso - sobre os costumes da época e também sobre a natureza da sociedade em geral.
Tudo somado, fica, pois, a impressão de um reencontro novo com uma história já conhecida: conciso, mas intenso, cativante e expressivo. Vale a pena conhecer esta adaptação. 

terça-feira, 25 de outubro de 2022

O Acontecimento (Annie Ernaux)

Um acontecimento capaz de traçar o limite da despreocupação e despertar em pleno a vida adulta, uma mudança que inicia buscas e transformações. Uma gravidez indesejada de uma estudante decidida a abortar em tempos de clandestinidade e que recorda, ao fim de muito tempo, os passos orientadores deste acontecimento. Vida narrada em voz de romance, mas num registo intimamente pessoal.
Apesar da evidente brevidade deste livro, não se trata propriamente de uma leitura fácil de descrever. Sempre a deambular pela fronteira da realidade, mas com a visão por vezes ambígua da memória, não é  tanto uma história como a introspeção, embora girando em torno de um acontecimento. E é também uma história que podia ser de muitas, o que deixa também uma marca singular.
Também devido à brevidade, mas no próprio registo, há uma impressão de concisão nos factos que contrasta com a vastidão da matéria para reflexão. O próprio tema suscita questões e a forma pessoal, mas refletindo uma situação comum a muitas outras, evoca questões sociais e até sobre a natureza humana.
E, mais uma vez, tudo de forma muito sucinta, o que faz sobressair um outro ponto. A narrativa converge para um acontecimento e o ritmo das palavras reflete essa convergência, oscilando entre deambulares pelas palavras, explicações muito rápidas e momentos de pura intensidade  dramática.
Tudo somado, o que fica é a sensação de um livro pequeno, mas vasto, pessoal, mas aberto às questões e complexidades sociais, e com uma voz certeira e direta, mas que evoca na perfeição os meandros da memória. Conciso, mas com uma eficácia memorável, um livro que marca de diferentes formas. 

terça-feira, 18 de outubro de 2022

O Jardim Secreto (Mariah Marsden e Hanna Luechtefeld)

Enviada para viver na charneca com o tio após a morte dos pais, Mary sente-se muito só. Não tem amigos, aborrece-se e, naquela mansão de quartos trancados, também não tem nada para fazer. Mas tudo muda quando começa a conhecer as pessoas da casa… e a descobrir os seus segredos. Há portas escondidas e mistérios do outro lado de um muro. E uma tristeza que talvez Mary possa começar a curar.
Algo que importa começar por salientar é que, sendo embora uma adaptação, este livro facilmente pode ser lido sem qualquer conhecimento prévio da história. O percurso é completo, ainda que conciso quanto baste, e as imagens completam a brevidade dos diálogos, além de salientarem o ambiente em que as personagens se movem.
Outro ponto a destacar é o inevitável contraste entre ternura e irritações. No início, não é propriamente fácil gostar das personagens, com as suas birras e petulâncias, mas isso é algo que vai evoluindo com a progressão da história,  e abrindo caminho para uma ternura inocente e melancólica que não pode deixar de cativar. Também ajuda o facto de as personagens irem surgindo gradualmente na vida da protagonista, o que faz com que a sua mudança gradual de perceções se vá transferindo, aos poucos, também para o leitor.
Finalmente, importa mencionar a arte, simples quanto baste nos traços das personagens, mas repleta de pormenores interessantes nos cenários e de vida na natureza. Ou não fosse esta a história de um jardim secreto, cujas transformações são parte do âmago da aventura. E as informações no final do livro, que permitem uma compreensão mais clara da origem da história e também um reconhecimento mais profundo dos elementos - plantas e aves - que surgem ao longo do enredo.
Simples quanto baste, mas com uma cativante fusão de inocência e melancolia, trata-se, em suma, de uma leitura envolvente, cativante à vista e bastante memorável no seu conjunto. Breve, mas surpreendente, vale bem a pena descobrir este Jardim Secreto.

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

A Espia do Oriente (Nuno Nepomuceno)

André Marques-Smith tinha uma vida dupla - mas não sabia até que ponto. E agora que a verdade veio à tona, grande parte do que julgava saber foi posto em causa. Ainda assim, a vida não para e a sua faceta mais secreta chama-o de volta ao ativo. Os documentos que tanto esforço lhe custaram a recuperar ainda não estão decifrados, e por isso a investigação deve continuar, até porque a sua vida pode depender disso. Mas quando isso implica trabalhar com uma mulher que despreza e em quem não confia... André não pode deixar de se interrogar se não estará a ser enganado outra vez.
Provavelmente a maior prova da intensidade deste livro é que, mesmo numa segunda leitura, em que as grandes revelações já são conhecidas, a história não perde absolutamente nenhum impacto. Das primeiras surpresas ao final devastador, tudo mantém exatamente a mesma força da primeira leitura, em fluidez, envolvência e, acima de tudo, emoção. 
Mas, claro, dizer que as qualidades se mantêm não diz quais são. E são muitas: a naturalidade da escrita, a capacidade incessante de surpreender, o equilíbrio entre emoção e humor e a força dos momentos mais dramáticos. 
E, além de tudo isto, sobressaem ainda dois pontos. O primeiro é o contraste equilibrado e cativante entre as múltiplas facetas da vida de André, oscilando entre a adrenalina da espionagem, as tribulações do trabalho e o quotidiano da vida familiar e dos amigos. O segundo está na base disto: a construção completa de personagens tão admiráveis como falíveis, tão eficientes como vulneráveis. Complexas. Imperfeitas. Humanas.
E se, de certo modo, este livro é também uma transição, no sentido em que deixa pontos em suspenso para o que falta contar, o que é certo é que não faltam desenvolvimentos marcantes, mais do que suficientes para tornar esta fase da aventura completa por direito próprio. E para deixar uma enorme vontade de ler o volume final - sim, mesmo já conhecendo a história.
Tudo somado, o que fica é a sensação de um reencontro marcante, cheio de intensidade, de surpresas e de ação, mas também de uma vulnerabilidade que nunca deixa de impressionar. E a ideia de que vale sempre a pena regressar aos lugares onde já fomos felizes quando as pessoas que nos cativam vivem por lá. Como é certamente esse o caso deste livro.

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

A Noite é um Jogo (Camilla Läckberg)

Anton, Liv, Max e Martina são melhores amigos desde que se lembram. Têm também uma vida de privilégio, como fica bem claro a partir da grande festa de passagem de ano que estão prestes a partilhar - só os quatro, porque é assim que preferem. Por detrás dos comportamentos infantis, das provocações e dos preconceitos, escondem-se, contudo, alguns segredos mais tenebrosos. E, à medida que a noite avança e as verdades começam a surgir, começa também gradualmente a formar-se um plano. Porque os seus maiores inimigos são os que estão mais próximos. E os quatro amigos não se importariam nada de se livrar deles.
É inevitável não começar por referir um aspeto bastante evidente deste livro, mas que define também os seus limites: é bastante breve. E, por ser bastante breve, o desenvolvimento do enredo e, sobretudo, das personagens, acaba por ser bastante conciso. Tudo gira em torno dos quatro amigos e dos seus traumas, e é aí que estão os momentos mais marcantes, ainda que também as maiores ambiguidades. Já quanto ao grande acontecimento no cerne de tudo: é breve. E tem o seu impacto, ainda assim, mas talvez pudesse ter sido explorado mais a fundo.
Dito isto, e apesar do registo bastante mais breve do que o habitual para a autora, não deixa de ser uma leitura cativante. E por várias razões. Primeiro, a escrita fluida e a oscilação entre diferentes pontos de vista criam uma envolvência pontuada por momentos de surpreendente tensão. Depois, o equilíbrio entre as diferentes personalidade significa que as relações não deixam de ter a sua complexidade, apesar da concisão. E, além disso, há várias surpresas ao longo do percurso que tornam inevitável a curiosidade em querer saber o que acontece a seguir.
Finalmente, sobressai um último ponto. É que, embora ambíguas (no mínimo) quanto à sua moralidade, as histórias dos quatro amigos não deixam de projetar uma reflexão interessante sobre certas facetas da sociedade: os vícios, a violência, os segredos, a infidelidade... enfim, as inúmeras coisas que se podem esconder atrás de portas fechadas. E o facto de as personagens não serem perfeitas projeta uma visão interessante: uma vítima não tem de ser perfeita para ser vítima.
Tudo se resume, portanto, a uma impressão bastante simples: a de uma história que podia certamente ter sido mais longa, mas que, mesmo na sua brevidade, não deixa de ter vários pontos de interesse. E de proporcionar bons momentos de leitura, independentemente do que fica sem resposta.

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Terra (Eloy Moreno)

O homem mais rico do mundo - e um dos mais odiados - está gravemente doente e a morte é certa, mas não quer partir sem uma derradeira demonstração do seu poder. E fá-lo não só com um discurso arrasador ao seu vastíssimo público, mas deixando um último desafio aos filhos. Dedicou a vida a enriquecer a qualquer preço. Mas agora o caminho da verdade está próximo. E pode ser devastador. 
Provavelmente a maior qualidade deste livro está na evidente relevância dos temas, com as alterações climáticas em primeiro plano, mas abordando também questões como a dinâmica das redes sociais, a capacidade de influenciar da televisão e a desigualdade de circunstâncias gerada pela riqueza. Não falta, pois, matéria para reflexão e basta isso para que a leitura valha a pena. 
Outro ponto forte está na capacidade de transpor todas estas questões para uma narrativa fluida, cativante e até surpreendentemente leve. Os capítulos curtos e a oscilação entre momentos e perspetivas conferem ao enredo uma intensidade viciante, o que, somado à sucessão de surpresas, prende do início ao fim. 
Quanto à construção das personagens, fica uma ligeira ambiguidade, resultante não só de alguns pontos que ficam em aberto do passado, mas também do facto de nenhuma delas ser do género que desperta empatia absoluta. Sendo certo que faz sentido que assim seja, atendendo às circunstâncias da história e à mensagem subjacente. 
Intenso e viciante, suficientemente ambíguo para recordar as imperfeições da humanidade e carregadinho de matéria importante para ponderar, trata-se, pois, de um livro simultaneamente leve e profundo, complexo quando baste, mas surpreendentemente leve de se ler. E tudo isto converge, enfim, em algo muito simples: uma boa história e uma leitura marcante.

Revelação de capa: A Espia do Oriente



UM ATENTADO IMINENTE. UM SEGREDO ENTERRADO NO PASSADO. UM HOMEM E UMA MULHER QUE SE ODEIAM, FORÇADOS A TRABALHAR JUNTOS.
A gozar de uma licença de serviço por motivos de saúde, o diretor do Gabinete de Informação e Imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros, um espião ocasional, é chamado de regresso ao ativo. Um cientista foi raptado e um atentado afigura-se no horizonte, ameaçando o equilíbrio político da Europa.
Porém, quando uma mulher enigmática, cujo nome e passado são mantidos em segredo, se oferece para trabalhar com o espião português, o mistério adensa-se. Ela tem no seu historial vários furtos e homicídios, mas será ele capaz de resistir à tentação da sua beleza exótica e invulgar?
Entre cenários tão variados quanto cosmopolitas de locais como Courchevel, Budapeste, Dubai e Lisboa, A Espia do Oriente é um thriller psicológico de leitura compulsiva, que nos transporta para uma teia complexa de mentiras, traições e reviravoltas inesperadas, como só Nuno Nepomuceno consegue criar. 

sábado, 10 de setembro de 2022

Senciente (Jeff Lemire e Gabriel Walta)

A vida na Terra parece estar próxima do fim, e é por isso que a esperança da humanidade está no envio do maior número possível de naves para a colónia, a fim de reconstruir a vida noutro local. Mas há um grupo de separatistas que acredita que a liberdade só pode ser conseguida cortando todas as ligações com a Terra. E é assim que se justifica o ataque que mata todos os adultos da U.S.S. Montgomery, mas que está longe de ser um sucesso total. É que, antes de morrer, uma das tripulantes conseguiu alterar os protocolos da inteligência artificial da nave, Valarie, e assim salvar as crianças. Agora, cabe a estas completar a missão e encontrar o caminho para a colónia... apesar dos perigos que continuam à espreita.
Parte do que torna esta história tão cativante é que, apesar do seu cenário futurista, dos elementos completamente distintos e da inevitável brutalidade de certos aspetos, a alma e a essência deste percurso está em algo de muito próximo e conhecido: os laços de afeto e as relações familiares - de sangue e não só. A ligação entre as crianças e Valarie é particularmente enternecedora, mas há todo um espectro emocional nesta aventura que gera emoções fortes. A capacidade de emocionar é, aliás, a maior força deste livro, ainda que haja vários outros aspetos cativantes nesta história.
Outro aspeto particularmente poderoso prende-se, aliás, com este contraste entre ternura e brutalidade, que é particularmente visível no aspeto visual. Algumas das mortes são bastante gráficas e o facto de os sobreviventes serem crianças gera necessariamente uma sensação de inocência perdida que transparece das expressões. Ainda assim, não é só o choque que transparece. Há uma expressividade bastante tangível nas personagens, sobretudo em Lil e em Isaac, que faz com que as emoções estejam sempre à flor da pele, mesmo nos momentos em que é a ação a dominar o enredo.
E, por falar em ação, importa salientar que, embora as emoções pareçam dominar, ação é coisa que não falta neste livro. Há momentos de grande intensidade desde as primeiras às últimas páginas e várias surpresas ao longo do caminho a manter sempre viva a curiosidade em saber o que se seguirá. Além disso, dado o rumo da história, é inevitável que não possa haver conclusões perfeitas. Mas, no seu equilíbrio de perda e sobrevivência, de perplexidade e superação, tudo converge para um final perfeitamente adequado ao caminho percorrido por estas personagens.
Intensidade, ação, expressividade e muita, muita emoção: são estes os elementos que tornam esta aventura tão memorável. Uma viagem a um futuro diferente, igualmente suscetível à crueldade e ao erro, mas onde o amor e a ternura permanecem imutáveis. Muito bom.

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

O Ovo Bom (Jory John e Pete Oswald)

Era uma vez um ovo bom. Muito, muito bom. Tão bom que se sentia na obrigação de garantir que os outros ovos da sua caixa eram igualmente bons. Só que, bem... não eram. E um dia, o esforço desmedido de os tentar mudar a todos, sem olhar para si mesmo, começou a cobrar o seu preço. E ao sentir que estava literalmente à beira de quebrar, o ovo bom tomou uma decisão difícil. Difícil... mas possivelmente necessária.
Parte do encanto destes livros - tanto este como o anterior A Semente Má - está na capacidade impressionante de transmitir mensagens importantes de forma muito concisa, mas também muito certeira. Se virmos bem, e ainda que, à primeira vista, a premissa pareça ser diametralmente oposta, os dois livros têm até uma base comum: a ideia de equilíbrio. De certa forma, aqui os papéis invertem-se. É ao querer ser perfeitamente bom que o ovo se esquece de si mesmo e começa a perder a serenidade e o equilíbrio interior. Mas a reflexão é comum, no fundo. Podemos sempre melhorar e corrigirmo-nos. Mas não temos de ser perfeitos sempre e em tudo - até porque ninguém o é.
Ora, tendo esta mensagem em mente, extrai-se uma conclusão: que, sendo embora um livro infantil, a mensagem deste livro é importante para todos. E é particularmente curioso notar que, na sua imensa simplicidade, essa mensagem passa, mesmo aos olhos de um leitor adulto. Há como que uma certa ternura que se sobrepõe às improbabilidades, ao olhar que procura uma história mais complexa ou realista, e que realça o essencial. Há matéria para reflexão nesta muito breve história, e isso independentemente da idade de quem a lê.
Finalmente, importa salientar as ilustrações, divertidas, coloridas e sobretudo muito expressivas. Ora isto é particularmente notável tendo em conta que as personagens são ovos. Mas a verdade é que não são uns ovos quaisquer. São ovos com uma vida muito agitada - e isso reflete-se nas expressões e nos gestos.
Simples, breve, terno e cativante - além de transbordante de cor e com uma mensagem fundamental e muito bem abordada. Assim é este pequeno e encantador livrinho sobre bondade e imperfeição. E não, não só nos ovos. De todo.

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Edgar P. Jacobs - O Sonhador de Apocalipses (François Rivière e Philippe Wurm)

Fascinado pela arte antiga, e sobretudo pelo Egito, com uma veia lírica e uma voz de barítono, grandes sonhos e interesses variados, seriam Blake e Mortimer a guiar grande parte do ritmo das suas criações. Mas, sendo certo que a vida se entrelaça na obra, nenhuma vida é apenas a sua obra. Há também as relações, as aspirações, os erros, os sucessos e os desencantos. E é uma vida toda, refletida na soma das partes, que serve de base a esta singular biografia.
Escusado será dizer, tendo em conta o livro de que se trata, que a grande força desta leitura está no retrato que traça da vida do seu protagonista. E força por duas razões: por ser completa, explorando as muitas facetas do seu percurso, ainda que, nalguns casos, em episódios mais breves, e por ser cativante, dando vida à "personagem" mesmo ao revelá-la aos olhos de alguém para quem será, possivelmente, desconhecida. Podemos chegar a esta leitura sem saber grande coisa sobre Edgar P. Jacobs, podemos até reconhecer apenas o nome. Ao fim do livro, esse conhecimento aprofundou-se consideravelmente.
Outro aspeto particularmente marcante é a exploração do mundo da arte em geral e da banda desenhada em particular, com uma visão bastante pormenorizada de como é construída a arte. Pode até chegar a ser um pouco desconcertante aos olhos de um leigo na matéria - como é, mais do que certamente, o meu caso - mas é também um foco de aprendizagem. Também aqui, podemos não saber nada sobre traços, perspetivas, cores e por aí adiante... Chegaremos certamente ao fim a saber um pouco mais.
E claro, como não poderia deixar de ser num livro como este, sobressai... a arte. O percurso pode até suscitar perplexidade, nomeadamente nas facetas menos conhecidas, mas mesmo nos momentos mais desconcertantes, há sempre o deslumbramento dos cenários e os ecos simbólicos que vão surgindo - egípcios, sobretudo, como seria de esperar. Mas não só.
Finalmente, importa salientar um aspeto especialmente marcante, que é o facto de, além de ser a biografia de um artista, ser principalmente a biografia de um homem, o que significa que há mais do que espaço para reflexões, vulnerabilidades e até alguns inesperados rasgos de emotividade.
Pode ser base de aprendizagem, matéria para reflexão, descoberta do mundo da arte e da vida de uma figura singular. Mas é, acima de tudo, uma história: uma história real, povoada por gente real, e que ganha vida e cor nestas páginas, mesmo para quem pouco mais conhecia do que os nomes. Basta isso para que valha a pena? Absolutamente.

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Santa Família (Eider Rodríguez e Julen Ribas)

A vida é feita de objetivos e de rotinas. Sonha-se com uma família, com uma profissão, com um expandir de horizontes, com deixar descendência. Mas sonha-se... ou é a sociedade que impõe essas expetativas? No caso desta família, tudo se constrói em equilíbrio entre o desafiar de convenções e o mergulhar nessas mesmas convenções. As aspirações iniciais dão lugar a uma profissão mais realista, o amor conduz ao casamento e a uma filha, e eis que se instala a rotina. Até que Nora, a filha do casal, se revela como mais do que uma adolescente normal. E então tudo começa a mudar e a evoluir. Ou a regressar às origens?
Uma das principais forças deste livro é, curiosamente, também o aspeto que gera mais sentimentos ambíguos: a imperfeição. Toda a história gira em torno dela: vidas imperfeitas, personalidades imperfeitas, sonhos imperfeitos, relações imperfeitas. E, porque tudo é imperfeito, não há propriamente uma proximidade total e absoluta com nenhuma das personagens, até porque os equilíbrios das relações tendem a realçar também mais as imperfeições delas. Mas, sendo certo que não são propriamente personagem admiráveis, a verdade é que esta ambiguidade as torna também mais reais: as dificuldades, as rotinas, os atritos e as fricções entre personagens tornam-se mais reais pelo facto de ninguém ser perfeito. Como na vida. E assim, mesmo quando a faceta inesperada da história ganha forma, é a humanidade das personagens que se destaca - nas qualidades e nos defeitos.
Esta imperfeição das personagens repercute-se também num aspeto visual que parece procurar refletir, acima de tudo, gentes e hábitos reais. Sim, salvo as devidas exceções de certas revelações da história, que criam também um contraste visual interessante (mas que importa manter em aberto). Mas a imagem geral que se forma é a de pessoas comuns num cenário razoavelmente normal - e isso é tão notório a partir do enredo como dos cenários e das expressões.
Finalmente, importa referir outra ambiguidade. Não se trata propriamente de uma história de grandes acontecimentos (ou, pelo menos, vistos de uma perspetiva exterior à desta família). E assim, salvo as já referidas revelações inesperadas, também não são os grandes momentos a ter o maior impacto. São as reflexões que emergem desta história: sobre a vida, sobre o crescimento, sobre a independência, sobre a rotina... Sobre todas as imperfeições que definem a existência humana.
História de uma vida familiar aparentemente comum nas suas imperfeições, mas com laivos de surpresa e muita matéria para reflexão, eis, pois, um livro que pode deixar alguns sentimentos ambíguos, mas que não deixa de refletir com impacto a estranha vulnerabilidade do ser humano. E isso basta. Sem dúvida.

sábado, 27 de agosto de 2022

Caligrafia (Alexandre Assine)

Paisagens resumidas a meia dúzia de palavras e histórias traçadas com a mesma devastadora concisão. Contemplações que oscilam entre a nostalgia e a afeição e confissões rasgadas de uma assumida e estranha crueldade. Fragmentos que se conjugam em cadernos mais vastos, poemas que se encadeiam sem verdadeiramente se unirem e uma voz que nunca se torna verdadeiramente definível. Mas que fascina, ainda assim.
Não é fácil definir este livro. Se a poesia já tem, por si só, o seu habitual núcleo de singularidades, a deste livro eleva-as à mais alta potência. Não é fácil falar de conteúdo, quando o que fica do conteúdo são imagens projetadas diretamente para o pensamento, que fluem com uma naturalidade quase intangível, que ganham vida durante a leitura, mas que são demasiado breves - apesar de muito memoráveis - para descrever. E quanto à estrutura, é tão diversa que é mesmo essa a única característica que se pode salientar. Não há forma ou regra que não seja explorada e moldada segundo uma imagem distinta.
Ora, ante um livro tão difícil de descrever, o que se pode salientar sobre ele? Bem, talvez os contrastes. Entre esta intangibilidade e a forma como nunca deixa de cativar ao longo da leitura, desde logo. Entre a brevidade extrema e a complexidade das imagens traçadas. Entre fios de proximidade e outros de uma contemplação distante, quase indiferente. E entre formas que fluem sem nunca se cingirem estritamente à sua definição.
É um livro breve e de poemas breves, fugaz ao ponto do indefinível. E, ainda assim, deixa as suas marcas. Importa, por isso, salientar um último ponto, o da singularidade. É certo que assume, por vezes, estruturas familiares, mas faz moldando-as numa forma diferente. E isso é simultaneamente desconcertante e fascinante.
Breve e indescritível, onírico e enigmático, eis, pois, um livro difícil de explicar, mas que, na sua inefabilidade, não deixa de se entranhar no pensamento. E basta este estranho equilíbrio - esta naturalidade indefinível - para fazer com que valha a pena viajar por estes poemas.

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Moonshine, Vol. 5 - Bebida de Guerra (Brian Azzarello e Eduardo Risso)

Lou Pirlo está de volta a Nova Iorque, acompanhado pelos seus cada vez mais numerosos fantasmas e decidido a pôr finalmente termo a todos os males que, voluntária e involuntariamente causou. A Lei Seca está a poucos dias do fim e fará com que tudo mude para todos. Mas as guerras, essas, não desapareceram e terão de se intensificar antes do fim. É por isso que Lou tem um plano para resolver, dentro do possível, o caos que o rodeou. Mesmo sabendo que, para o fazer, terá de arrastar conflitos passados para o presente e de aceitar que é bem provável que não chegue vivo ao fim de tudo.
Tendo em conta o percurso que nos conduziu até aqui, há certas coisas que eram, à partida, expectáveis para este volume final. A rapidez dos desenvolvimentos é uma delas, e eleva-se aqui a um ritmo ainda mais intenso, em que tudo se transforma de uma página para a outra e chega a ser difícil acompanhar as mudanças da teia de relações. Faz sentido que este ritmo atinja aqui uma espécie de apogeu, pois é aqui que tudo se encerra. E, sendo certo que fica, por vezes, a sensação de um avanço ligeiramente apressado, a verdade é que este ritmo alucinante acaba também por enfatizar as reviravoltas e por preparar terreno para a devastadora intensidade do final.
Outro aspeto bastante evidente é que, tendo em vista todo o passado, nunca se poderia esperar um final limpo e harmonioso. É tudo menos isso. Mas não deixa de ser um final extremamente adequado: todos os fios do passado convergem para esta conclusão, proporcionando momentos de enorme impacto, grandes surpresas, alguns inesperados rasgos de emoção e uma resolução final que pode não ser a mais desejada, mas é a que faz mais sentido. Tendo em conta a personagem... e os seus fantasmas.
Visualmente, sobressaem os habituais contrastes de luz e de sombra, o equilíbrio entre o belo e o monstruoso e um elemento que se torna mais vincado neste volume final: a expressividade retorcida das personagens, e particularmente de Lou, que reflete não só a sua natureza dual, mas o lado atormentado que só aqui se torna verdadeiramente claro. O equilíbrio entre arte e enredo sempre foi claro, mas aqui torna-se ainda mais evidente. E particularmente intenso nas últimas páginas.
Intenso, furiosamente rápido e com um equilíbrio eficaz entre mundano e sobrenatural, entre violência e redenção... e, claro, entre vida e morte... trata-se, em suma, de uma conclusão à altura para uma série muito cativante. E que nem sempre será fácil de entender nas suas singularidades... mas que vale bem a pena conhecer.