terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Assim se Pariu o Brasil (Pedro Almeida Vieira)

Revoltas, conspirações, intrigas e traições, acordos de não muito boa fé e boas intenções que se transformaram em actos não tão bons. De tudo isto se fez a história do Brasil colonial, desde os tempos do descobrimento (ou achamento?) até ao dia da independência. E é também de tudo isto que é feito este livro, onde nomes e personalidades mais ou menos conhecidos surgem como protagonistas de um conjunto de acontecimentos que - do simplesmente bizarro ao potencialmente devastador - marcaram, de alguma forma, a história do Brasil.
Um dos primeiros aspectos a sobressair neste livro é a forma como está organizado, sendo que cada capítulo (se assim se lhes pode chamar) se dedica a um facto ou episódio concreto, mas em que as ligações entre os vários acontecimentos não deixam de estar bem presentes. E isso, desde logo, devido à categorização dos episódios através de várias tags (o que é, por si só, um traço invulgar do livro), mas também pelas várias referências que vão sendo feitas, em notas de rodapé ou no próprio texto, a acontecimentos narrados em outros capítulos.
Outro aspecto que é inevitável referir é a vastidão de conhecimento que é possível retirar deste livro. E, se é certo que a grande quantidade de nomes e o facto de muitos factos e figuras não serem propriamente do conhecimento geral faz com que haja muito a assimilar, o que exige tempo e concentração, também é verdade que há muito de interessante a retirar de tudo isto. Sejam as decisões mais peculiares de uma qualquer "personagem", sejam as implicações de um determinado conflito, seja ainda a mudança de perspectiva que o tempo lançou sobre um determinado assunto, há, em todos estes episódios, muito para descobrir. E isso é mais do que o suficiente para fazer com que os tais tempo e concentração exigidos valham a pena. 
Claro que um texto com tantas referências a nomes, datas e acontecimentos dificilmente poderá ser de leitura rápida e compulsiva. Mas há, ainda assim, algo de muito cativante na forma como o autor apresenta os factos, acrescentando, no momento certo, uma observação particularmente certeira ou um rasgo de humor especialmente apurado, que torna tudo bastante mais interessante. Além disso, quando tudo (ou quase) é novo ou relativamente desconhecido, o facto de haver muito para descobrir nunca pode deixar de ser motivo de interesse. 
E, assim sendo, o que fica da leitura deste Assim se Pariu o Brasil é a percepção de um livro cativante, esclarecedor e com muita informação interessante para transmitir. Uma boa leitura para ficar a saber mais sobre as aventuras - e desventuras? - de portugueses e não só em território brasileiro. 

Autor: Pedro Almeida Vieira
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Uma Questão Pessoal (Lee Child)

Um atendado falhado ao presidente francês, impedido apenas por um novo tipo de vidro à prova de bala, lança o caos entre as agências governamentais de diferentes países. O tiro foi disparado a mais de mil e quinhentos metros e há poucos atiradores capazes de algo assim. Mas um dos principais suspeitos é norte-americano e, caso seja ele o responsável, pode estar aí o início de um grave incidente. Ora, esse suspeito é também uma figura conhecida do passado de Jack Reacher. E é por isso que, de forma algo invulgar, o antigo polícia militar é chamado de volta a acção. Na companhia de uma analista novata, cabe a Reacher seguir a pista do seu suspeito e apanhá-lo, mais uma vez. Mas as coisas não são assim tão simples. E há várias pistas que não batem certo...
Uma das primeiras coisas que importa dizer sobre este livro é que, apesar de fazer parte de uma longa série de livros com o mesmo protagonista, não fica, em momento algum, a sensação de haver alguma informação em falta. Todo os factos pertinentes do passado de Reacher são referidos ao longo do enredo e, quanto ao caso propriamente dito, tudo o que aqui tem início encontra também o seu fim. Assim sendo, este é um livro que se lê perfeitamente sem qualquer conhecimento anterior da série e do protagonista.
Pode também funcionar como um bom ponto de partida, já que a missão implica que o protagonista conheça umas quantas personagens novas. E, ao dar-se a conhecer a essas personagens, Jack Reacher mostra-se também ao leitor em todas as suas peculiaridades. O que me leva, aliás, ao ponto mais interessante de todo o livro. É que, ao narrar a história pela voz do protagonista, o autor apresenta, nesse registo, alguns dos traços mais vincados da personalidade de Reacher, bem evidentes nas frases que repete e no muito cativante sentido de ironia que, em muitas das vezes, lhe está subjacente.
Quanto ao caso propriamente dito, há dois aspectos que se destacam e que, de alguma forma, se complementam. Por um lado, muitos dos avanços decorrem de alguma capacidade dedutiva do protagonista, o que cria um enredo bastante racional e em que a emoção surge muito espaçadamente. Ora, isto cria uma sensação de distância para com as personagens, retirando-lhes parte da possível empatia. Mas, se é verdade que os momentos mais emotivos são poucos, também o é que, quando acontecem, surgem com surpreendente intensidade. Intensidade essa que não implica dramatismo. Muito pelo contrário. Mas que, no seu registo discreto, mas eficaz, acaba por proporcionar, ainda assim, vários momentos memoráveis.
Da soma de tudo isto, fica a impressão de uma aventura que é feita em igual medida de acção e de dedução. E que, no seu registo invulgar, permite uma visão diferente das personagens, ao mesmo tempo que as conduz por uma sucessão de descobertas inesperadas. Intrigante e surpreendente, uma boa leitura.

Título: Uma Questão Pessoal
Autor: Lee Child
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Guerra e Paz

Ribadouro é uma aldeia do Douro Vinhateiro que tem como pano de fundo a vida austera dos cavadores de vinha, que, num espaço curto de tempo, passam de uma situação confortável a uma situação de pobreza envergonhada. As personagens marcantes desta história são a todo-poderosa Ana Francisca, que se torna amante de uma figura política de peso a quem paga luvas para que lhe facilite a construção de um resort de luxo numa área protegida; Bernardo Castela, enólogo e homossexual; e Imaculada, estudante universitária fogosa, comprometida com um rapaz da sua idade. A morte repentina dos pais deixa sem recursos a jovem, que aceita uma proposta de casamento de Bernardo Castela, que tem apenas o propósito de esconder a sua autêntica sexualidade. Mas a impotência do milionário, que tem o dobro da sua idade, conduz Imaculada à frustração. Desfazendo o enlace, procura emprego, mas espera-a uma segunda armadilha: sob promessa de uma vida esplendorosa em Angola, é levada ao engano para um bar de alterne na restinga de Luanda, onde acaba por ser resgatada pelo antigo namorado, o homem da sua vida.

Flávio Capuleto sempre quis ser escritor. Depois de conhecer a dura experiência da Guerra Colonial em Angola, teve vários ofícios, sem nunca deixar de ler e escrever. Só em 2012, porém, conseguiria ver publicado o seu primeiro romance, No Calor dos Trópicos, lançado pelo Clube do Autor. Mas o sucesso só chegaria em 2014 com a publicação pela Guerra e Paz Editores do romance Inferno no Vaticano, best-seller que viria a figurar no TOP 10 dos livros mais vendidos na área da ficção. Com o romance Corrupção, Flávio Capuleto aspira a seguir com sucesso o caminho trilhado.

Divulgação: Nova edição de O Quarto de Jack

Para Jack, de cinco anos, o quarto é o mundo todo. É onde ele e a Mamã comem, dormem, brincam e aprendem. Embora Jack não saiba, o sítio onde ele se sente completamente seguro e protegido, aquele quarto é também a prisão onde a mãe tem sido mantida contra a sua vontade. 
Contada na divertida e comovente voz de Jack, esta é uma história de um amor imenso que sobrevive a circunstâncias aterradoras, e da ligação umbilical que une mãe e filho.

Emma Donoghue é escritora de romances históricos e contemporâneos.
Nasceu em Dublin, onde viveu durante vinte anos, até ir viver para Inglaterra – para estudar em Cambridge – e depois para o Canadá. 
Mudou-se recentemente para França.
O Quarto de Jack é o seu título mais conhecido, mas Emma já escreve desde os vinte e três anos e a sua carreira como escritora conta com alguns bestsellers, como Slammerkin, The sealed letter, Landing, Life-Mask, Hood e Stir-Fry.
A título de curiosidade, refira-se que o pai de Emma Donoghue, que também era crítico literário, foi professor de Henry James na faculdade.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

As Grandes Cartas de Amor (Elizabete Agostinho)

Amor. O que redime e o que destrói, o que fundamenta as bases de uma relação duradoura e o que nunca alcança o coração de quem é objecto desse amor. O que não chega, o que não é possível, o que extasia e o que nunca morre. Amor, pela voz de vários grandes nomes da história que, mesmo não o reflectindo no legado que deixaram, puseram em cartas à pessoa amada a verdadeira dimensão do seu sentimento. 
Organizado - tanto quanto é possível fazer uma tal divisão - pelo que se poderiam considerar os diferentes tipos de amor, este é um livro que reúne um conjunto de cartas das mais diversas figuras históricas, tendo, em certos casos, como único ponto comum o tema dessas mesmas cartas. É de amor que é feito este livro e, portanto, há, inevitavelmente, essa presença recorrente. E é tendo em conta esse tema comum que o mais interessante neste livro acaba por ser a diferença. A diferença entre a forma como cada uma dessas figuras expressou o seu amor, como, nas cartas, se reflecte uma história e uma vivência diferentes para um mesmo sentimento.Tão diferentes que, em alguns dos casos, o amor é óbvio, arrebatado, sendo impossível deixá-lo por declarar, enquanto que, noutras, é discreto, quase questionável, ténue, mas, apesar de tudo, presente. 
Destas diferenças surgem claros contrastes para o que é, no fundo, um sentimento comum. E é, na verdade, isso o que mais contribui para tornar interessante esta leitura. É que, mesmo que, depois de ler umas quantas declarações mais ou menos claras de amor mais ou menos eterno, a leitura nunca se torna demasiado repetitiva, porque a forma como o autor de cada carta exprimiu os seus sentimentos é diferente da de todos os outros. E assim, seja uma faceta sobejamente conhecida do seu autor, seja algo de completamente inesperado, há sempre algo de novo a descobrir em cada carta.
Ainda um outro ponto que importa realçar neste livro é o aspecto visual. Se é certo que a organização das cartas, e as cartas em si, bastam para que a leitura valha a pena, a beleza da edição acrescenta-lhe algo mais, evocando, em certa medida, com os fragmentos das diferentes caligrafias e a forma como o texto é enquadrado, um pouco da sensação de ler uma carta. Também isto torna a leitura mais apelativa.
E eis, pois, uma viagem pelo amor através dos tempos - ou das mentes de vários grandes nomes. Uma viagem cativante - e, por vezes, surpreendente - em que do universal surge a diferença, num sentimento que, vivido de mil maneiras diferentes, continua, ainda e sempre, a ser apenas um. Muito interessante e muito bonito, um livro que vale a pena ler.

Título: As Grandes Cartas de Amor
Autora: Elizabete Agostinho (selecção e coordenação)
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

The Young World - O Mundo Novo (Chris Weitz)

Desde que uma misteriosa doença dizimou adultos e crianças, poupando apenas os adolescentes, o mundo mergulhou no caos e os sobreviventes dividiram-se. Alguns tentaram aguentar-se sozinho, mas grande parte organizou-se em tribos mais ou menos bem sucedidas. Jefferson é o (relutante) novo líder da tribo de Washington Square e acaba de lidar com a morte do irmão quando um dos seus companheiros lhe apresenta uma possibilidade irresistível. Descobriu o resumo de um artigo que pode ser a primeira pista para a descoberta de uma cura para a doença. Mas seguir essa pista implica expor-se - e aos companheiros - a um perigo mortal. Enquanto líder, cabe a Jefferson a decisão. Mas, sabendo que tudo o que tem pela frente são dificuldades, poderá ele viver com as consequências?
Narrado na primeira pessoa pela voz dos dois protagonistas, este é um livro que pega num clássico cenário pós-apocalíptico, transpondo para ele todos os inevitáveis dilemas da vida adolescente. Todas - ou quase - as personagens são adolescentes e isso significa que todas - ou quase - estão a passar pelos dilemas e descobertas típicos da idade. Mas isso em plena luta pela sobrevivência, o que significa que, ao mesmo tempo que descobrem sentimentos e afirmam - ou recusam - valores, estão numa luta sem tréguas com grupos rivais, os perigos da natureza selvagem e toda uma série de circunstâncias que podem revelar-se fatais.
A forma como o autor cria um equilíbrio entre estes dois aspectos é, talvez, o grande ponto forte deste livro, já que permite que haja os ocasionais momentos emocionais (mas não demasiado lamechas) sem perder o foco na acção constante que define a vida dos protagonistas. E se isto cria, em certos momentos, uma sensação de distância, também torna mais fortes os episódios em que essa distância se esbate. Além disso, há no desenvolvimento das personagens algumas peculiaridades que as tornam interessantes, mesmo se nem sempre é possível compreender as suas acções.
Grande parte do enredo é feito com base numa sucessão de perigos e obstáculos potencialmente mortais que as personagens têm de superar. Mas, se isto basta para conferir à história um ritmo bastante cativante, é, na verdade, nas pequenas coisas que está o lado mais interessante: na forma como os vários grupos se formaram a partir do caos, nas regras por que se regem e no valor dessas regras, e na forma como, em pleno caos, os fins podem, ou não, justificar os meios. Além disso, a forma como, de perigo em perigo, as personagens são conduzidas para um final bastante inesperado, cria um muito cativante crescendo de intensidade. Que culmina numa grande pergunta, é certo, o que deixa uma certa insatisfação. Mas que cria, também, grandes expectativas para o que poderá acontecer no próximo livro.
Da soma de tudo isto, fica a ideia de um início promissor, em que a acção é o elemento dominante, mas em que, gradualmente, os melhores traços das personagens começam a revelar-se no que promete ser ainda apenas o início de uma grande aventura. Uma boa história, portanto, e uma boa leitura.

Autor: Chris Weitz
Origem: Recebido para crítica

Para mais informações sobre o livro The Young World - O Mundo Novo, clique aqui.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

De Olhos Fixos no Sol (Irvin D. Yalom)

Viver uma vida consciente significa viver com o conhecimento de que, um dia, tudo termina. E se é verdade que há muitas formas de lidar com o medo da morte, também é certo que, para muitas pessoas, esse medo pode assumir a forma de um terror paralisante. Enquanto psicoterapeuta, Irvin D. Yalom dedicou muito tempo - e experiência - a este assunto. E, fruto dessa experiência e do seu próprio percurso pessoal, este é um livro que, sem respostas fáceis ou absolutas, mas de forma muitíssimo esclarecedora, nos encaminha para a necessidade de enfrentar esse medo olhos nos olhos.
Uma das primeiras coisas a cativar para este livro, e principalmente tendo em conta o tema que lhe serve de base, é o registo que o autor usa para expor as suas ideias. Assente na sua própria experiência e no vasto conhecimento que aqui revela, bem como no percurso dos seus pacientes e na sua própria vida pessoal, a percepção que o autor tem sobre a morte é algo de fascinante e a forma como a expõe aos olhos do leitor, tão clara nas ideias, mas, acima de tudo, reforçada por percepções e emoções vividas na primeira pessoa, é, em si mesma, um apelo à reflexão.
Também um aspecto interessante é o facto de, apesar de grande parte do livro assentar em exemplos vindos da terapia, havendo inclusive um capítulo orientado para terapeutas e futuros terapeutas, o tom do livro nunca deixa de ser acessível e envolvente, referindo as teorias e ideias que servem de base à perspectiva do autor, mas sem se perder em divagações e tecnicismos necessários. O autor tem uma mensagem a transmitir e fá-lo com a máxima clareza possível. E dessa mensagem - das ideias que transmite, das perguntas que evoca, até mesmo das emoções que consegue despertar - emerge um vasto conjunto de matéria para reflexão. E, quando falamos de um tema tão importante e inevitável, reflectir é preciso.
Ainda uma última particularidade surpreendente diz respeito à forma como, através das histórias que conta, quase parece ser possível ficar com uma ideia de como será o autor enquanto terapeuta, já que, ao mostrar alguns diálogos com pacientes, mostra também um pouco de si. E isto torna-se particularmente interessante quando se fala de convicções pessoais, sendo aqui especialmente relevante a questão da crença. Nas conversas com os seus pacientes, e também quando se dirige ao leitor, o autor assume com toda a clareza as suas posições sobre a fé, mas também a forma como lida com as crenças dos pacientes. E isto é interessante porque, assente na crença de uma vida finita ou numa possível existência após a morte, é a forma como se lida com o medo o que realmente importa. E esta é apenas uma ideia a destacar-se entre o muito de interessante que este livro tem.
Trata-se, portanto, de um livro para pensar, de uma viagem a um medo incontornável e sobre o qual, através do exemplo, das ideias e das emoções, o autor lança uma nova luz. Muitíssimo interessante no conteúdo, e muitíssimo cativante na escrita, eis, pois, um livro que não posso deixar de recomendar.

Autor: Irvin D. Yalom
Origem: Recebido para crítica