sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Morte no Nilo (Isabelle Bottier e Callixte) | O Misterioso caso de Styles (Jean-Francois Vivier e Romuald Gleyse)

Um aparentemente inócuo - ainda que fascinante - cruzeiro pelas águas do Nilo que resulta na morte da detentora de uma grande fortuna, alguém que, apesar da juventude, parece ter vários inimigos reunidos no barco. E um misterioso envenenamento em casa de uma família de bem, mas onde grandes segredos parecem esconder-se nas sombras. Ambos casos fatais, intrigantes e aparentemente inexplicáveis. Nada é, porém, indecifrável para uma mente tão arguta como a de Poirot. E, por mais escassas que possam parecer as pistas, a verdade vem sempre ao de cima...
Algo que importa começar por dizer sobre este volume, à semelhança, aliás, das adaptações anteriores, é que se lê perfeitamente sem qualquer conhecimento dos romances que lhe serviram de base. Ainda assim, tendo já lido um dos dois romances, importa também dizer agora que o conhecimento prévio também não prejudica à leitura, não só porque a adaptação, com a sua componente visual e expressiva, lhe confere matizes diferentes, porque o enredo é suficientemente complexo para que haja sempre detalhes novos.
Olhando, pois, para o livro tal como ele é, e pondo de parte a existência ou não de conhecimento prévio do enredo, há dois aspectos que sobressaem: a arte, sobretudo na vida e expressividade que confere às personagens, e a capacidade de construir um equilíbrio perfeito entre a informação dada pelos diálogos e a que está contida nos elementos visuais. O resultado é um livro equilibrado, sem excessos explicativos e em que o impacto das surpresas é maximizado não só pelas expressões das personagens (principalmente em certos momentos mais dramáticos), mas também pelos tons dos próprios cenários.
Sendo um volume duplo, sobressai também o contraste de estilos. O Poirot de Morte no Nilo não é de todo igual ao de O Misterioso Caso de Styles. E, ainda assim, ambos evocam na perfeição a eterna figura do grande detective. Podem ser visões diferentes e estilos diferentes, mas ambos têm a alma da personagem e o seu encanto irresistível. E quanto às histórias... Bem, sobre as histórias não se pode dizer muito sem revelar demasiado segredos. Mas mistério e intriga não lhes faltam...
Não importa, pois, se se trata de um primeiro contacto com estas histórias ou da descoberta de uma nova formulação. O que é certo é que tudo nesta adaptação cativa: as expressões, a cor, os contrastes... e, naturalmente, as histórias e personagens. Envolvente, intrigante e cheio de surpresas, um belo duo de aventuras. Muito bom.

Divulgação: Novidades Saída de Emergência

Há mais de uma década, cinco adolescentes – Sloane, Matt, Ines, Albie e Esther – foram reunidos por uma agência governamental com base numa profecia que dizia serem eles os Escolhidos que destruiriam O Tenebroso, uma entidade maligna que espalhou o caos e ceifou milhares de vidas. Com o objetivo alcançado, a Humanidade celebrou a vitória.
Mas o conflito deixou marcas profundas. Se o mundo seguiu em frente e há uma nova geração que não tem memória da guerra, tal não acontece a Sloane. É impossível para ela esquecer os segredos que a perseguem e O Tenebroso ainda assombra os seus sonhos. Ao contrário dos restantes, Sloane não conseguiu seguir em frente; sente-se à deriva – sem direção, objetivos ou propósito.
Na véspera das celebrações dos Dez Anos de Paz, um novo trauma atinge os Escolhidos: a morte de um deles. E quando se reúnem para o funeral descobrem, para terror de todos, que o reinado d'O Tenebroso nunca terminou verdadeiramente.

VERONICA ROTH cresceu em Barrington, Illinois, e vive em Chicago.
Estudou Escrita Criativa e é a autora de várias obras de sucesso, nomeadamente da série Divergente, adaptada ao cinema.
Pode consultar a página da autora em https://veronicarothbooks.com/.

 
Prisioneira do elfo Avallac’h, Ciri tem de decidir se aceita dar ao rei dos Amieiros um filho para assim poder alcançar a liberdade. Cansada de fugir, a jovem percebe que encarar o seu destino é a única forma de salvar aqueles que ama. Geralt de Rivia e os seus companheiros chegam finalmente ao castelo de Stygga. Para proteger Ciri e Yennefer, o bruxo vê-se obrigado a enfrentar novamente o terrível feiticeiro Vilgefortz. E, para piorar, o mundo continua mergulhado em guerra…
Natural da Polónia, Andrzej Sapkowski (1948-) é um aclamado autor de fantasia, conhecido pela saga The Witcher e pela criação da personagem Geralt de Rivia.
Vencedor de inúmeros prémios polacos e europeus, a sua obra já foi traduzida para mais de vinte línguas. A saga literária The Witcher inspirou uma série de videojogos de grande popularidade que vendeu mais de 20 milhões de cópias no mundo inteiro.


Minerva Hepplewhite aprendeu da pior forma a tomar conta de si. Depois de ser acusada da morte do marido, ela monta um discreto negócio de investigação que atrai atenções indesejadas… nomeadamente a de Chase Radnor, um homem que há anos podia ter destruído a vida de Minerva. Chase não consegue decidir se Minerva é uma mulher injustiçada ou uma femme fatale. Mas tem uma certeza: ela é a pessoa ideal para o ajudar a descobrir por que razão o seu tio, um abastado duque, a nomeou como herdeira e morreu pouco tempo depois em circunstâncias suspeitas. Quando a súbita atração dá lugar a uma sedução mútua, ambos terão de perceber se a parceria na investigação pode ser o primeiro passo para uma aliança muito mais profunda…

Madeline Hunter é autora bestseller de romances históricos e vive na Pensilvânia, EUA, com o marido e dois filhos. Os seus livros ganharam dois RITA Awards e tiveram sete nomeações. Numa existência paralela à que tem como romancista, Madeline é formada em História e é professora numa universidade na Costa Leste.

Estamos no início dos anos 80. O ex-marine Jack Ryan é um historiador que está em Inglaterra a fazer investigação para um livro sobre o IRA. Uma série de perigosos encontros com membros desta organização terrorista chamam a atenção do diretor da CIA, que propõe a Jack trabalhar como analista para a agência. Logo no primeiro dia de trabalho um documento importante chega à sua mesa: o novo Papa, João Paulo II , enviou um ultimato privado a Varsóvia: se o regime continuar com a repressão, ele será obrigado a renunciar ao papado e a regressar à Polónia para lutar contra o bloqueio soviético.
Em Moscovo, Yuri Andropov, diretor do KGB, está seriamente preocupado com tudo o que isto significa para si e para o governo soviético: um só homem pode fazer fracassar todo o trabalho da sua vida. O Papa é muito poderoso, mas também é um mortal… Nas semanas seguintes, Jack Ryan deverá enfrentar uma reação em cadeia que jamais teria imaginado, um jogo de gato e rato entre a URSS e os Estados Unidos que ameaça não só os líderes mundiais mas também a estabilidade do mundo ocidental.

TOM CLANCY foi autor de vários bestsellers do The New York Times. Apaixonado por história naval, sempre teve o desejo de escrever um romance.
A sua primeira tentativa, A Caça ao Outubro Vermelho, revelou-se um estrondoso sucesso internacional. O realismo e autenticidade dos seus livros, bem como o enredo complexo e o suspense que sempre imprimiu às suas histórias, valeram-lhe um lugar entre os grandes mestres do suspense e do thriller.
Tom Clancy faleceu em outubro de 2013. Pode consultar a página do autor em tomclancy.com.


Durante uma pausa para o almoço, um professor bebe um chocolate quente desconhecendo que acaba de se condenar a uma morte agonizante. A comunidade escolar fica chocada e as raparigas que encontram o corpo ficarão traumatizadas para toda a vida. Para a tenente Eve Dallas, homicídio e mentira andam de mãos dadas, e a sua tarefa é investigar os suspeitos e descobrir a razão de alguém matar um homem que parecia tão inofensivo… tão inocente.
Já Magdelana Percell é uma pessoa que Eve consegue imaginar como vítima de homicídio. Possivelmente às mãos de Eve. A elegante loira — e antiga paixão de Roarke — apareceu em Nova Iorque determinada a recuperar o tempo perdido. Consumida pelo ciúme e pela indiferença de Roarke, Eve tem dificuldades em concentrar‑se no caso, mas terá de pôr de lado a sua vida pessoal quando é encontrada uma segunda vítima e as atenções se voltam para a escola de elite que está na origem dos crimes.

J. D. Robb, pseudónimo de Nora Roberts, é uma das autoras mais lidas, acarinhadas e respeitadas em todo o mundo. Com mais de 500 milhões de cópias vendidas em todo o mundo e cerca de 90 bestsellers na lista do The New York Times, Nora Roberts foi a primeira autora a ser convidada para o Romance Writers of America Hall of Fame. Nascida em Silver Spring, Maryland, é a mais nova de cinco filhos e vive em Keedysville, onde continua a escrever.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

A Axila de Egon Schiele (André Tecedeiro)

Da arte da fuga à permanência da memória. Do contemplar de um mundo ao longe ao lavar as mãos pelo fogo para sentir mais de perto. Da cinza do interior às cores - e ao escuro - do exterior. E de toda uma outra vastidão de imagens difíceis de descrever, mas simultanteamente oníricas e palpáveis. De tudo isto, e mais, talvez, é feita esta antologia poética, voz complexa traçada em poemas breves, mas certeiros e estranhamente universais.
Parte do que torna esta leitura tão marcante é o estranho e fascinante equilíbrio entre uma voz basicamente indescritível e uma familiaridade absurdamente intensa. Talvez devido à brevidade dos poemas, que realça ao máximo o impacto do mais breve dos versos, ou talvez devido ao sentimento latente, que, moldado mais pela projecção das imagens do que pelas palavras que as evocam, se torna fácil de compreender, o que é certo é que, embora seja difícil apontar aspectos concretos, a impressão que fica é profunda, intensa e memorável.
Outro aspecto notável é a nítida sensação de que todo o percurso é algo pessoal. E não pessoal para o autor, mas para quem lê. São versos fixos, palavras definidas e, nalguns casos, visões muito claras, mas a verdade é que cada uma destas imagens ganha uma forma diferente consoante as emoções e impressões que desperta. E claro que isto se aplica um pouco a todos os livros, mas este em particular realça em toda a sua glória o facto de que cada leitor lê um livro diferente - ainda que as palavras que lá estão sejam as mesmas.
Também aqui uma palavra se repete: brevidade. E um brevidade impressionante. Alguns dos poemas são compostos por um único verso e, ainda assim, não lhes falta nada. Outros alongam-se um pouco mais, traçando imagens mais intrincadas, evocando sentimentos mais profundos. Mas todos têm precisamente a dimensão certa, formando cada um um todo independente que, no conjunto desta antologia, forma algo maior que a soma das partes.
Surpreendentemente viciante para um livro de poesia e com um equilíbrio brilhante entre cadência e tom, fluidez e brevidade, trata-se, em suma, de um daqueles livros que - surpreendentemente, mais uma vez - se devora de uma assentada, exigindo, no entanto, múltiplos regressos aos muitos locais onde marcou. E é ao mesmo tempo aberto e pessoal, vasto e simples, belo e poderoso. Numa palavra: memorável.

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Kitty e o Desfile das Lanternas (Paula Harrison e Jenny Løvlie)

A Kitty e os amigos estão muito entusiasmados com o Festival da Luz e o consequente desfile de lanternas. Até porque há um concurso para a melhor lanterna e o prémio é uma bonita coroa. Mas há alguém que quer estragar o desfile, esgueirando-se pela multidão e roubando bens valiosos - incluindo o prémio do concurso. Apesar de sozinha, porque os seus amigos felinos têm medo dos foguetes, Kitty não renuncia ao seu papel de aspirante a super-heroína. E os seus poderes felinos vão ser-lhe muito úteis na perseguição a um tão esquivo ladrão.
Um dos aspectos mais cativantes desta série é que, mesmo ao quinto volume de um conjunto de aventuras que seguem a mesma linha essencial - afinal, o objectivo de uma heroína é sempre salvar o dia! -, nunca deixam de existir pequenas surpresas. Neste caso, o desafio está no facto de a Kitty não contar com os seus aliados felinos, o que, além de reforçar a mensagem de confiança nas suas próprias capacidades, que é um dos pontos centrais de toda esta série, acrescenta um percurso um pouco diferente ao enredo. Além claro, nos novos elementos: o Festival da Luz, a Torre Maravilha e a intrigante Dodger, que vêm acrescentar algo de novo a um mundo simples, mas cheio de pontos de interesse.
Também o aspecto visual continua a ser uma das grandes forças, com os tons de negro e laranja e evocar nitidamente os dois elementos centrais da vida de Kitty: a noite e os seus amigos gatos. Junte-se a isto a impressão de movimento e de luz, resultante da forma como as ilustrações mostram as perseguições da Kitty e aspectos como as lanternas e o fogo de artifício, e a inevitável impressão é que a ilustração dá ainda mais vida a uma história já muito animada.
Claro que, sendo um livro pensado sobretudo para crianças, ainda que perfeitamente capaz de proporcionar bons momentos de leitura a quem, como eu, já deixou a infância bem lá para trás, é uma história relativamente simples, sem grandes pormenores nem explicações. Mas isto acaba por ser uma qualidade. Porque lembram-se de quando era fácil acreditar em contos de fadas, em criaturas mágicas e em acontecimentos impossíveis? Pois, este tipo de histórias traz de volta essa simplicidade. E, aos olhos de um leitor adulto, uma agradável nostalgia.
É essa, afinal, a grande beleza destes livros: a capacidade de, durante o tempo da leitura, fazer esquecer as complexidades do mundo, levando-nos numa aventura simples e divertida, onde tudo é possível. Leve, cativante e sempre muito ternurento, é um livro simples, sim, mas doce e encantador.

domingo, 25 de outubro de 2020

Dylan Dog - Até que a Morte vos Separe (Mauro Marcheselli, Tiziano Sclavi e Bruno Brindisi)

Antes de enveredar pela carreira de detective do pesadelo, Dylan Dog foi em tempos um jovem agente da Scotland Yard, dedicado ao seu trabalho e suficientemente idealista para acreditar numa certa noção de justiça. Mas nenhum idealismo dura para sempre, principalmente em tempos conturbados como aqueles. No mesmo dia em que o seu parceiro é morto por uma bomba, Dylan conhece Lillie, uma irlandesa interessante com um fraquinho por batatas fritas. Só que Lillie acredita em causas e tem associações perigosas. E o que parece ser uma paixão ardente pode esconder segundas intenções. Afinal, Dylan e Lillie estão de lados opostos... e não há muitas formas de a história poder acabar bem.
Poderá, talvez, ser uma surpresa, tendo em conta a relativa brevidade do livro, mas um dos primeiros aspectos a surpreender - e um dos mais marcantes, tendo em conta o percurso global - é a complexidade das relações, não só no contexto global da situação, mas sobretudo nos laços entre os protagonistas. É relativamente fácil prever que uma relação entre um polícia inglês e uma simpatizante do IRA não poderá propriamente acabar num final feliz e cor-de-rosa, mas o percurso não deixa, ainda assim, de ser intenso, repleto de momentos dramáticos e também de uma ou outra situação divertida, abrindo caminho para um final poderosíssimo.
Também particularmente notável é o elemento sobrenatural, numa fase da vida do protagonista em que este factor não fazia propriamente parte das suas funções. Nas visões de Lily, mas também na ténue cortina que separa presente e memória, há algo de constante e de intangível que liga Dylan ao futuro - e os leitores a Dylan. Junte-se a isto a construção da própria personagem e o impacto das circunstâncias e o resultado pode não ser obviamente sobrenatural, mas tem, ainda assim, algo de transcendente.
E há algo na arte, que, não sendo propriamente fácil de descrever, é, ainda assim, memorável. Sendo a preto e branco, sobressaem em primeiro lugar os jogos de sombra e a firmeza do traçado na expressão das personagens. Mas sobressai ainda mais o surpreendente pormenor dos cenários, principalmente nos mais complexos, e a sensação quase onírica que deles resulta. Enquanto as páginas voam - e voam realmente... - as imagens vão-se entranhando de forma natural. Mas é impossível não querer voltar atrás, para olhar com mais atenção para a emoção de um rosto, para a sombra de um fantasma que se desvanece ou para o pináculo de uma grande construção.
História de amor jovem, de causas arrebatadoras e de justiça ambígua, trata-se, pois, de uma leitura breve, mas fascinante. Daquelas que se devoram de uma assentada... mas já com a promessa de um regresso em mente. Muito, muito bom.

sábado, 24 de outubro de 2020

Frank e o Amor (David Yoon)

Frank Li tem dois nomes, e às vezes chega mesmo a sentir que tem duas vidas. Uma é a sua vida normal de rapaz americano, no último ano do secundário e prestes a entrar numa boa universidade. Outra é das expectativas da sua ascendência coreana. Todos esperam que ele saiba tudo sobre a cultura, mas Frank nem sequer fala coreano. E sabe que a sua família espera que não siga o rumo da irmã mais velha e opte por namorar com uma boa rapariga coreana. Ora, acontece que o coração de Frank tem outros planos e é por isso que se alia a Joy, uma amiga da família, a fim de fingirem ser namorados e poderem encontrar-se com os seus verdadeiros amados - que, obviamente, não são coreanos. Só que... as coisas não são assim tão simples, e o namoro a fingir começa a tornar-se perigosamente sério.
Provavelmente o aspecto mais marcante deste livro é a capacidade de abordar temas muito sérios sem nunca perder a leveza, mas também sem nunca dar a impressão de que tudo é fácil. Questões como o isolamento das comunidades, e algum consequente racismo, são factores bem evidentes na vida de Frank e condicionam muitas das suas decisões. Junte-se a isto o peso da doença e da mortalidade, bem como a percepção de que tudo na vida - incluindo o amor - é passageiro, e o resultado é uma carga emocional surpreendentemente forte, aligeirada pela leveza e pelo humor que o autor confere à voz de Frank, mas sem lhe retirar nenhum do seu impacto.
É, aliás, um contraste poderoso o que nasce da contraposição entre estes temas fortes e o espírito de aventura que, de certa forma, está também bem vivo nesta história. Afinal, é o último ano do secundário, um ponto de viragem na vida de Frank e dos seus amigos. E, temas profundos à parte, também as relações de amizade, a paixão das pequenas coisas e a interacção naturalmente divertida entre as várias personagens tem o seu lado marcante. Leveza e profundidade - e completam-se tão bem.
E, claro, há amor e descoberta, com todas as ambiguidades e imperfeições que isso implica. Há os momentos dramáticos e os de cumplicidade natural, as escolhas impossíveis e a sensação de que o mundo acabou... até ao dia seguinte. É amor jovem em toda a sua glória, e é interessante notar que, mesmo nos momentos em que as decisões das personagens parecem ligeiramente incompreensíveis, também isso acaba por fazer sentido.
Leve quanto baste e, ao mesmo tempo, surpreendentemente profundo, trata-se, pois, de uma história de amor juvenil com temas sérios em fundo. Cativante, divertido e - nos momentos certos - emotivo, um livro que prende do início ao fim. E que fica na memória bem depois disso.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Deuses Americanos - O Momento da Tempestade (Neil Gaiman, P. Craig Russell e Scott Hampton)

O Pai Supremo foi morto pelos novos deuses, o que significa que a guerra é agora inevitável. E é com esta certeza que, com alguns companheiros relutantes, Shadow parte para o centro da América, a fim de, à sombra de uma trégua, recuperarem o corpo de Wednesday. Só que nada do que Shadow julgava saber é verdadeiro e, face a uma longa e potencialmente mortal vigília ao corpo do seu líder morto, muitas verdades virão à superfície. Mais do que uma guerra, avizinha-se um massacre. E só Shadow poderá dar voz à verdade... se sobreviver à sua descoberta.
Terceiro e último volume desta adaptação do romance de Neil Gaiman, um dos primeiros aspectos a sobressair deste livro é a ainda mais irresistível vontade de ler o original que lhe serviu de base. O que não quer dizer que seja necessário, pois estes três volumes valem pela sua própria natureza, proporcionando uma experiência tão peculiar quanto fascinante, e também repleta de intensidade e emoção. Ainda assim, é impossível não querer reencontrá-la noutro formato.
Outro aspecto notável é o simples facto - bem, ou talvez não assim tão simples - de que toda esta viagem tem sido uma sucessão de enigmas e de ilusões criadas pelos diferentes intervenientes. Sendo o último volume, é aqui que todas as revelações se manifestam. Mas, se o mistério já vinha de trás, o que talvez anunciasse já uma certa turbulência, nada poderia ter prenunciado a tempestade de revelações que é este livro. Nada nem ninguém era o que julgávamos ser. E a forma como isso se manifesta - sobretudo no impacto que tem para Shadow - é algo de absolutamente genial.
Mas o mais impressionante de tudo é a capacidade de despertar emoções tão profundas e uma familiaridade tão grande num mundo que é, afinal, tão peculiar. Deuses, antigos e novos, uma sucessão de fenómenos estranhos e uma vigília tão brutal no aspecto físico quanto mística no aspecto onírico, dão a todo o percurso um ambiente improvável. E, ainda assim, é absurdamente fácil compreender a desolação de Shadow, as mágoas, a perda, a sensação de traição, o sacrifício, a determinação... enfim, toda uma natureza humana complexa e vulnerável, mas com o coração e os valores no sítio certo. O que é em si mesmo um prodígio, numa história como esta.
Intenso, belíssimo e emocionalmente devastador, eis, pois, um final notável para esta tão estranha viagem. Uma viagem pela América - e por outros mundos que não este - mas, sobretudo, pelo coração das personagens. Porque, parafraseando uma delas, há sangue, mas também há gratidão. E o inverno foi longo... Mas fascinante, acima de tudo.