segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Às Dez a Porta Fecha (Alice Vieira)

A Casa da Chaminé é um lugar especial. Mais que uma casa de repouso para idosos, ali vivem as memórias de vidas muito diferentes, mas todas elas fascinantes na sua forma muito particular. Esta é a história dessas vidas, das memórias que definiram os seus diferentes caminhos e que os levaram ao lugar que agora ocupam. Mas esta é também uma história de solidão, da vida num tempo que deixou de ser familiar e onde a companhia está naqueles que, também deixados ao esquecimento dos tempos que passam, vivem também da sua própria recordação. De nostalgia, mas também de alegrias que não têm idade trata este livro tão breve, mas tão marcante no que toca à emoção.
Situações curiosas, algumas divertidas, outras comoventes, são o que define o quotidiano das personagens deste livro. Um quotidiano muito especial. E é interessante notar a forma como, num impressionante equilíbrio entre humor e melancolia, a autora constrói, neste livro, uma história que é, simultaneamente, de uma leveza refrescante e de grande profundidade emocional. Para os habitantes da Casa da Chaminé, aquele lugar é, agora, a sua casa, mas as memórias do passado surgem com a nitidez do que é demasiado importante para ser esquecido. Há algo de marcante na vida de cada um deles e, desde os sonhos de criança que ficaram por concretizar às alterações causadas pela vida em tempos de mudança, há uma nostalgia para com os momentos alegres, uma memória que prevalece e que é, por si só, uma poderosa reflexão sobre a vida e o seu percurso de permanente mudança.
Se, ao recordar o passado das personagens, se reflecte sobre a continuidade da vida, já nos acontecimentos do presente na Casa da Chaminé é da vida na velhice que se trata. Da solidão de uma família que esqueceu, o que deixou de ter interesse em partilhar tempo com os seus e do abandono, mas também das inesperadas companhias, das pequenas alegrias da vida e até, da descoberta de que não há idades para o afecto. Também neste aspecto o lado emocional é fortíssimo, culminando num final de deixar um sorriso nos lábios.
À primeira vista, esta parece ser uma história muito simples. É-o, de facto, a nível de acontecimentos. Mas, naquilo que cada acção e cada memória representa no caminho de uma vida longa e marcada pelos seus pequenos sucessos e fracassos, há nesta história tanto para reflectir e tanto de emoção para descobrir que o impacto final se prolonga bem depois de terminada a leitura. Belo e comovente, um livro impressionante.

1 comentário:

  1. Adorei este livro! Reli-o no ano passado numa espécie de homenagem à minha adolescência, quando devorava toda a obra da escritora.

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