domingo, 2 de abril de 2017

Leonor (Pedro Sequeira de Carvalho)

Apesar de ter tido uma educação religiosa, Emanuel não se interessa particularmente pelas coisas da igreja. Mas tudo muda quando conhece Leonor, uma rapariga simples, um pouco ingénua e muito religiosa. Decidido a voltar a vê-la, Emanuel dá por si a interessar-se também pelos assuntos da igreja, na esperança de que estes lhe tirem as muitas dúvidas que tem. Mas não sabe que talvez tenha um rival onde menos espera. E Leonor, inocente como parece ser, não compreende que está no centro de demasiadas atracções.
O que mais chama a atenção para este livro - e fá-lo desde muito cedo - é a premissa da história, pois o potencial de um possível romance entre um céptico e uma devota é bastante, não só em termos de diferenças entre personagens, mas também no que toca aos valores subjacentes aos diferentes modos de vida. Além disso, ao longo da história, com outras personagens a revelar potencial, surgem ainda outras questões pertinentes, desde logo relacionadas com o padre e a sua crise sentimental, mas não só. E, assim, a primeira impressão que fica é a de um conjunto de ideias interessantes e a partir dos quais se poderia construir uma grande história.
A história tem os seus bons momentos, é verdade, mas, infelizmente, há na concretização destas ideias algumas falhas difíceis de ignorar. A forma como as personagens se avaliam mutuamente cria, à partida, um ambiente de julgamento excessivo uns dos outros, o que torna difícil criar empatia para com qualquer uma delas. Além disso, as ideias dos vários intervenientes parecem, por vezes, contradizer-se ou não encaixar muito bem na perspectiva global do enredo. E há tantos fios de pensamento a cruzar-se na história que, por um lado, as mudanças de rumo parecem demasiado apressadas e, por outro, as convicções de algumas personagens (como, por exemplo, a de um pai que acha justificada, em certos casos, a violência física para com as mulheres) criam um choque difícil de superar. 
Quanto ao romance entre os protagonistas, é provavelmente o que mais cativa em toda esta história, tão cheia de pensamentos e trocas de argumentos por vezes difíceis de entender. Há, entre Leonor e Emanuel, alguns momentos interessantes, ainda que seja difícil, por vezes, ignorar a forma como ele parece pensar nela. O problema é que, numa história que segue tantas por sendas diferentes (e, por vezes, incoerentes), tudo acaba por ficar um pouco confuso, deixando sem resposta demasiadas perguntas importantes e centrando-se em aspectos que não são assim tão pertinentes.
A imagem que fica é, por isso, a de uma ideia promissora, mas com vários aspectos a melhorar. E, principalmente, a de um contraste algo confuso entre formas de pensamento mais ou menos antiquadas, do qual é possível tirar algumas boas ideias, mas também posições mais difíceis de assimilar. Falta um pouco mais de unidade aos muitos fios deste livro. Que tem os seus bons momentos, ainda assim. 

Título: Leonor
Autor: Pedro Sequeira de Carvalho
Origem: Recebido para crítica

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