terça-feira, 7 de outubro de 2014

A Mulher Louca (Juan José Millás)

Julia é uma mulher estranha, visitada por frases e por seres imaginários e com uma vida que se divide entre uma relação amorosa com um homem casado e o lugar que ganhou numa família sem laços de sangue, criada em redor de uma doente terminal. É nesse cenário que o seu caminho se cruza com o de Millás, autor e personagem - mas não narrador. E, através dos últimos dias de Emérita, Julia descobre novos factos sobre a linguagem que tão bem conhece. Millás descobre, talvez, uma forma de, dissociando-se de si mesmo, ultrapassar o bloqueio criativo. E Emérita exerce o seu direito a morrer com dignidade, independentemente da vontade dos outros.
Peculiar e repleto de surpresas, este é um livro que, apesar da relativa brevidade e da abundante estranheza, facilmente se torna memorável. E um dos aspectos que mais marcam nesta leitura é precisamente o equilíbrio entre a tal estranheza e o fascínio que os acontecimentos e os pensamentos em torno dela acabam por exercer. A relação de Julia com a linguagem, em primeiro lugar, e depois a entrada em cena de Millás, também ele ligado às questões da linguagem, mas numa perspectiva diferente, criam uma série de situações e pensamentos surpreendentes, que, associados à questão mais ampla do que é a tão falada linguagem - e como se define, de onde veio, que sentidos tem - se tornam particularmente interessantes.
Também interessante é o papel de Millás em toda a história, surgindo primeiro como uma figura vagamente mencionada pelo narrador, para depois se tornar quase protagonista, sem nunca deixar de ser autor. Neste aspecto, o que sobressai é a forma como, apesar da brevidade e da aparente simplicidade que domina a história, há todo um conjunto de ideias complexas a surgir ao longo da narrativa. Temas fortes, como a questão da eutanásia, mas também questões interiores, como o dilema do autor perante si próprio, à procura de uma forma de reencontrar a voz.
E, depois, há uma evolução emocional ao longo da leitura que acaba por ter, também, um grande impacto. Da curiosidade inicial perante as muitas peculiaridades de enredo e personagem, a história evolui para um registo mais introspectivo e, com a entrada em cena de Emérita, para a ponderação das grandes questões. Não se perde nunca a estranheza que tanto cativa nesta história, mas com a aproximação dos últimos dias de Emérita, a narrativa torna-se mais séria, mais nostálgica e, por isso, também mais emotiva. 
No final, ficam na memória dois aspectos principais: a estranheza que abre caminho ao fascínio e a leveza simples sob a qual se esconde a complexidade das coisas sérias. E é o equilíbrio de tudo isto, num registo leve e agradável, mas sempre surpreendente, que faz, enfim, com que esta leitura valha a pena. Porque vale, de facto.

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