sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Uma Escolha Imperfeita (Louise Doughty)

Yvonne Carmichael tem uma vida estável, um marido que a ama e uma carreira invejável. Mas basta uma escolha errada para que tudo seja posto em causa. Tudo começa no primeiro encontro com um homem enigmático, um pouco brusco mas rodeado de uma aura de mistério, que, após uma conversa quase acidental, coloca Yvonne numa posição em que nunca se imaginou. Desse encontro resulta a descoberta de um lado de si que, apesar de diferente de tudo o que normalmente a caracteriza, lhe agrada e a realiza. E assim, de conversa em conversa, e de aventura em aventura, Yvonne envolve-se num caso amoroso cujas consequências serão imprevisíveis. Principalmente, porque, se ela pouco sabe do seu misterioso Mr. X, como pode ter a certeza de que pode confiar nele?
Um dos principais pontos fortes deste livro é também aquele que o torna algo perturbador. A história de Yvonne, mulher de sucesso com uma vida perfeitamente normal, começa com o que parece ser apenas uma aventura amorosa, como tantas outras. Mas, com o evoluir dos acontecimentos, e isso implica tanto as experiências traumáticas como o passado que a elas conduziu e o futuro que delas deriva, há um resvalar para o caos que é simplesmente assustador. E é-o precisamente por mostrar de que forma uma simples escolha errada pode deitar tudo a perder.
O outro grande ponto forte prende-se com a escrita da autora e com o registo em que a narrativa é construída. Ao contar a história pela voz de Yvonne, e dirigindo-a ao seu misterioso amante, a autora torna mais próximas as circunstâncias da protagonista e, ao desenvolver os seus pensamentos e emoções, mais fácil a empatia. Além disso, há, neste registo introspectivo, uma série de frases impressionantes, que, ao longo de toda a leitura, sobressaem como detalhes brilhantes numa narrativa toda ela muito bem escrita.
Ora, se Yvonne consegue gerar bastante empatia, apesar das suas escolhas erradas (ou até mesmo por causa delas), o mesmo não acontece com o seu Mr. X. Por um lado, o facto de ser apenas Yvonne a narrar a história, sem que os verdadeiros pensamentos ou razões da outra parte sejam apresentadas pela sua própria voz, cria uma certa distância. Mas principalmente porque os comportamentos que essas razões poderiam justificar falam bastante claramente por si mesmos. Parte das acções de Yvonne são justificáveis, mas não se pode dizer o mesmo das de Mr. X. E, assim, o que acontece é que se torna, por vezes, difícil compreender a forma como, depois de tudo o que é narrado ao longo da história, os sentimentos de Yvonne seguem o rumo que seguem.
O que fica, no fim de tudo, é a impressão de uma história onde nem todas as respostas são agradáveis e nem todas as personagens têm algo de bom. Mas, muitíssimo bem escrito, com um registo cativante e um lado perturbador que apela à reflexão, acaba por ser, ainda assim, um livro que fica na memória. 

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