sábado, 11 de outubro de 2014

A Vida Peculiar de um Carteiro Solitário (Denis Thériault)

A vida de Bilodo é feita de uma rotina simples, que passa do centro de distribuição às rondas da entrega do correio, sem esquecer a hora do almoço, durante a qual se dedica aos seus exercícios de caligrafia, e o regresso, ao fim do dia, à sua casa solitária. Mas Bilodo tem um prazer secreto. À noite, sozinho no seu apartamento, dedica-se a ler as cartas que devia entregar. E foi assim que se deparou com os haikus de Ségolène. Sem nunca a ter visto, Bilodo sente-se fascinado por ela, simplesmente pela leitura das suas palavras. E, quando o seu correspondente morre num trágico acidente, Bilodo encontra a sua oportunidade de se aproximar da mulher que, sem conhecer, já ama. Mas como poderá ele tomar a identidade de Grandpré sem que Ségolène suspeite de nada?
Relativamente breve e com uma história com tanto de simples como de peculiar, este é um livro que, entre a estranheza e a leveza, cativa principalmente por dois motivos. O primeiro é a quase inocência com que Bilodo vive a sua situação, ciente de que nem todas as suas escolhas são correctas, mas, ainda assim, inteiramente devoto na sua ligação à mulher amada. O outro vem da série de momentos peculiares, mas narrados com uma naturalidade que os torna facilmente assimiláveis, que abrem caminho da inevitável estranheza a uma certa empatia para com o amor inocente do protagonista.
Não se trata de uma história particularmente complexa e a própria escrita, bastante acessível, adequa-se na perfeição à narrativa. E, ainda assim, a poesia está sempre presente, seja na criação dos poemas que são, afinal, o centro da relação entre Bilodo e Ségolène, seja nos pensamentos que são associados a esse acto de criação. Não deixa de ser interessante ver como a vida simples de Bilodo se transforma na sua ânsia de responder a Ségolène, e a sua descoberta da poesia e da cultura japonesas, ainda que também ela narrada com a expectável simplicidade, tem muito de cativante.
Ficam várias perguntas sem resposta e, por isso, a impressão de algumas possibilidades por explorar. De Ségolène, nunca se chega a saber grande coisa, para além da perspectiva que Bilodo tem dela e do que os poemas revelam. Ainda assim, esta ambiguidade relativamente ao outro lado da relação torna mais marcante a devoção de Bilodo e as perguntas sobre o que poderá ter sido conferem, apesar de tudo, uma estranha intensidade à construção do final.
Breve e aparentemente simples, este é, portanto, um livro em que nem todas as possibilidades são desenvolvidas, mas em que inocência e amor se fundem numa história que, cativante pelas suas peculiaridades, enternece e surpreende. Uma boa leitura, em suma.

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