quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Sombra de um Peregrino (Rafael Loureiro)

Achava que tinha uma vida plena... mas bastou uma noite e tudo desabou. Agora, passado quase um ano desde a noite em que uma entidade indefinida lhe roubou a mulher, a vida que conhecia e a sua paz interior, Adriel não pode dormir, pois adormecer significa reviver constantemente esse mesmo instante de pesadelo. Mas, ainda que a sua cruz seja sua para carregar, Adriel não está sozinho. Conta com o auxílio e o conforto de Abílio, um frade mercedário que, tendo-o conhecido no pior dos seus momentos, se associou a demanda de Adriel. E esta demanda que, através de múltiplas pistas e de alguns contactos úteis, os conduzirá à descoberta da verdade. Mas entorpecido pela privação de sono, atormentado pelo colapsar da fé e dividido entre novos sentimentos e a sombra profunda que o envolve por completo, Adriel tem ainda um longo caminho a percorrer - e uma sombra ainda mais negra à sua espera.
Independentemente das muitas e fascinantes peculiaridades do mundo (ou submundo) em que estas personagens se movem, da intrincada teia de mistério e de misticismo que parece envolver cada revelação e do crescendo de tensão e de perigo que marca o ritmo de todo o enredo... Independentemente de todas estas qualidades, que estão efectivamente bem presentes, é impressionante a forma como é o impacto emocional de todo o percurso o que mais profundamente se entranha na memória. É fácil sentir empatia por quem perdeu tudo e a situação de Adriel facilmente desperta solidariedade. Mas é particularmente fascinante a forma como esta proximidade imediata se vai aprofundando e transformando em algo mais forte ao ritmo da progressão dos acontecimentos. É fácil sentir a impotência do homem que perdeu tudo e ainda se viu acusado pela sua perda. Mas é fácil sentir também o seu desejo de vingança, as suas dúvidas, a sombra negra que constantemente o envolve, em profundo contraste com a luz discreta (mas oh, tão poderosa...) do seu companheiro mais próximo. Junte-se a isto outro curioso contraste - o dos laivos de ternura e até de leveza que rasgam a sombra densa da vida do protagonista - e o resultado é uma intensa viagem emocional.
Mas nem só de emoções vive este livro. Vive também das personagens, do mundo e da história. O mundo é o nosso mundo real, mas meticulosamente entrelaçado nos mitos intemporais de anjos e demónios, de tentação, possessão e exorcismo. A história... bem, a história é cheia de surpresas, não só na linha central de procura e combate à estranha entidade, mas também no que diz respeito à jornada de Adriel na sua negação ou descoberta da fé. E as personagens são fascinantes, cada uma à sua maneira, todas com as suas peculiaridades, mas todas (ou quase todas, por razões que se tornarão óbvias...) com a sua medida de humanidade e de vulnerabilidade.
E importa referir um último ponto, principalmente para quem já leu os outros livros do autor. Lembram-se de Nocturnus? Bem... Aparentemente, a história deles nunca acaba. E, ainda que a sua presença neste livro seja relativamente discreta, é sempre um prazer reencontrá-los, principalmente quando protagonizam momentos tão poderosos.
História de anjos e demónios, de fé e de desolação, de perda, de descoberta e de uma vida, talvez, para além do abismo. Tudo isto, define, de certa forma este caminho: um caminho repleto de surpresas, povoado por gente notável e de uma emotividade tão profunda que, mais do que na memória, há coisas que nos ficam gravadas no coração. Se recomendo? Naturalmente. É uma história belíssima.

Autor: Rafael Loureiro
Origem: Recebido para crítica

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