segunda-feira, 4 de julho de 2022

Querido Monstro (Dita Zipfel e Mateo Dineen)

O medo faz parte da vida. E quando somos pequenos, as pequenas coisas podem tornar-se grandes medos. Mas... nem sempre. Que o diga o monstro deste livro que, apesar de se ter instalado debaixo da cama de uma criança, não consegue assustá-la por mais que se esforce... E não falta criatividade nas suas tentativas.
O ponto mais surpreendente desta pequena história vem, naturalmente, da perspetiva que assume. Afinal, a ideia do monstro debaixo da cama não é propriamente nova, mas ver as coisas da perspetiva do monstro? Já é algo diferente. Além disso, o medo e a procura de formas de lidar com ele são algo de perfeitamente natural. Mas o que resulta desta visão é algo de mais simples, mas também bastante certeiro: opor ao medo a serenidade.
Outro elemento importante prende-se, naturalmente, com o aspeto visual. Sendo um livro para crianças, as imagens dizem tanto como as palavras. Neste caso, sobressaem dois pontos: a carta, que constrói uma imagem do monstro mais vulnerável e falível (tem, aliás, o seu próprio lado infantil, o que cria paralelismos interessantes com a imaginação do seu impassível rapaz); e o contraste entre os deliberados desenhos rabiscados desta carta e as ilustrações mais vivas e complexas que a complementam, dando uma visão mais clara de quem é este monstro frustrado com a sua vida profissional.
É, naturalmente, uma história breve, e bastante simples. Não há grandes reviravoltas nem grandes desenvolvimentos. Ainda assim, há uma exceção peculiar. Dada a forma como a história é escrita, quase que se antecipa um certo final... e depois as coisas seguem um rumo que não é bem o esperado, numa conclusão menos linear, mas mais forte, para esta carta de aparente despedida.
Simples, cativante e com o seu quê de enternecedor, trata-se, em suma, de um belo ponto de partida para uma primeira reflexão sobre o medo. E para uma perspetiva diferente dos monstros debaixo da cama da nossa própria imaginação.

quinta-feira, 23 de junho de 2022

Amor de Pechisbeque (Pedro Rodrigues)

O fim de uma relação pode ser o início de um novo caminho, mas não é por isso que deixa de doer. Que o diga o escritor, que, apesar do conforto dos amigos, tem de lidar não só com o bloqueio criativo, mas com tudo o que não estava preparado para perder. No início, julga que uma nova relação pode ser a solução para todos os seus problemas. Mas precisa de se descobrir primeiro. Até porque às vezes o passado volta.
Sendo uma história relativamente breve, e centrada sobretudo no quotidiano, um dos aspetos mais surpreendentes é necessariamente o equilíbrio de contrastes. Ambientes boémios e melancólicos, vícios privados e epifanias quase espirituais, sonhos idílicos e realidades imperfeitas. Muito do que aqui acontece prende-se com os sentimentos do protagonista, mas há um mundo à volta, e estes contrastes enfatizam-no.
Outro aspeto curioso vem da visão simples, mas bastante certeira, por vezes, do mundo digital. É fácil reconhecer partes do que o autor descreve e, podendo embora haver discordância com algumas perceções do protagonista, não deixa de ser uma boa base de reflexão para algo complexo no meio de uma história simples.
Finalmente, importa salientar que, numa história de fins e de inícios em que o quotidiano reina, o facto de as personagens serem imperfeitas as torna mais reais. E que, ainda que fique uma ligeira curiosidade insatisfeita ante o final relativamente aberto, a verdade é que faz sentido a forma como tudo termina.
Simples, leve, mas com as medidas certas de poesia e de emoção, é um livro atual na perspetiva exterior... e surpreendente na proximidade interior. E uma boa história, pois claro.

sexta-feira, 17 de junho de 2022

Revolver (Sérgio Almeida)

O absurdo da existência assume formas insuspeitas, evocações de algo maior que se esbate na presença da simples realidade, contemplações de outras vozes que ressoam no coração dos tempos e uma fusão de ordem e caos que é, no fundo, a ordem dos dias. É este essencialmente o cerne desta poesia: transformação e finitude, tempo e o fim do tempo.
Feitos maioritariamente de imagens inesperadas, o maior impacto destes poemas resulta provavelmente dos contrastes. Há algo de etéreo, mas também raízes do quotidiano. Contemplações inspiradoras, mas também imagens de puro pesadelo. E há uma voz que é pessoal, mas suficientemente ambígua para criar laços de universalidade com quem a contempla do outro lado do papel.
Outro aspeto a salientar destes poemas tem a ver com a liberdade total em termos de estrutura. Breves ou longos, variados na métrica, na cadência e até na aproximação ao diálogo, cada poema assume a forma que o conteúdo lhe pede. E assim, as palavras fluem com naturalidade plena.
Finalmente, importa destacar a coesão do todo por entre a individualidade das partes. Haverá sempre textos que deixam marcas mais profundas, mas a sensação que predomina é a de que tudo neste livro está lá porque deve estar. 
Tudo somado, o que fica é a impressão de uma voz pessoal que parte da sua própria liberdade para falar ao universal. E que reflete facetas e contrastes num todo complexo, mas coeso e muito cativante. Uma voz singular, em suma, mas fácil de absorver. 

terça-feira, 7 de junho de 2022

A Colónia de Férias (Manuela Piemonte)

Sara, Angela e Margherita são como quaisquer outras irmãs, com as suas rivalidades, mas também com os seus laços. E têm uma vida feliz, ainda que as exigências da mãe as exasperem, por vezes. Mas tudo muda quando chega à Líbia a ordem de que todas as crianças devem ser enviadas para uma colónia de férias em Itália, a fim de conhecerem a pátria e receberem uma educação de acordo com os valores que a definem. E depois começa a guerra, e os três meses previstos transformam-se numa estadia sem prazo. E as três irmãs terão de aprender a crescer longe de casa, tendo apenas o apoio umas das outras... e alguns segredos.
Parte da força deste livro vem da capacidade de construir contrastes. A história centra-se maioritariamente no percurso das três irmãs, o que cria laços de proximidade fortes, mas reflete as complexidades do contexto histórico, o que contrapõe à inocência aspetos bastante mais cruéis da vida. Além disso, no mundo fechado em que as protagonistas se movem, há também um delicado equilíbrio entre as suas realidades e fantasias.
É um livro relativamente pausado, não só por abranger um longo período, mas também pela caracterização expansiva dos cenários, das regras e até sas fantasias das personagens. Mas pausado está longe de significar maçador e a fluidez peculiar das palavras justifica plenamente o tempo exigido por esta cadência mais lenta.
Tendo em conta o período em que decorre, é também expectável que nada seja simples. E não é, não faltando matéria para reflexão nesta história onde haverá inevitavelmente altos e baixos, mas nunca poderá haver finais perfeitos.  Faz sentido que assim seja, e é também por isso que a forma como tudo termina se afigura bastante adequada.
História de inocência e de crescimento, de guerra mundial e rebelião individual, de perdas e encontros, e de vida para lá dos regulamentos, trata-se, em suma, de um livro complexo e cativante, duro e enternecedor. E que exige o seu tempo, sim. Mas também o merece.

sexta-feira, 3 de junho de 2022

Divulgação: Novidades Saída de Emergência

 As vidas perfeitas podem ser uma ilusão.
A família Bigelow parece ter uma vida de sonho. Contudo, as aparências enganam e, por detrás de portas fechadas, Zane e Britt vivem aterrorizados. O pai mantém um controlo férreo sobre a família, e as crianças aprenderam a esconder o medo do resto do mundo. Até ao dia em que Zane comete o erro de discutir com o pai. As consequências separam a família e deixam uma marca indelével.
Anos mais tarde, Zane regressa à cidade onde cresceu determinado a ultrapassar o medo do passado. E basta um olhar para ele perceber que, sob uma aparência alegre e descontraída, Darby McCrae esconde um trauma profundo e doloroso.
Quando as trevas do passado os alcançam, Zane e Darby terão de enfrentar juntos os seus demónios. Conseguirão encontrar forças para superar os medos e defender aqueles que amam?

A biografia de uma figura incontornável do Islão
Um rapaz de seis anos chora nos braços da mãe enquanto ela o incentiva com o último suspiro: «Maomé, sê aquele que muda o mundo!» O menino, subitamente órfão numa sociedade tribal que teme mudanças, terá de ultrapassar enormes obstáculos para libertar o seu potencial e inspirar outros a fazer o mesmo.
Ao apresentar ao grande público detalhes conhecidos apenas pelos investigadores, Mohamad Jebara dá vida à história do profeta que fundou o Islão. Desde o seu nascimento dramático, passando por tentativas de rapto e homicídio, Maomé emerge como um homem único. Ao seu lado estão mulheres dinâmicas que o educam, mentores judeus, cristãos que o inspiram e escravos que ajuda a libertar e que impulsionam o seu movimento.
Jebara contextualiza historicamente a vida de Maomé, evocando a sociedade de Meca em que ele nasceu e defendendo que a visão inovadora do profeta ajudou a moldar o mundo moderno.

E se a rainha Isabel II resolvesse crimes enquanto desempenha os seus deveres reais?
No verão de 2016, no rescaldo de um referendo que dividiu a nação, a última coisa de que a Rainha precisa é de mais problemas. Contudo, quando uma pintura do iate real Britannia – oferecida à Rainha nos anos 60 – aparece inesperadamente numa exposição da Marinha Real, Sua Majestade percebe que alguma coisa está errada.
No Palácio de Buckingham, alguns membros do pessoal começam a receber cartas perturbadoras. E se inicialmente Rozie, a fiel secretária da Rainha, pensa não existir motivo para preocupações, o caso muda de figura quando um corpo é encontrado na piscina do palácio. A Rainha está determinada a resolver o caso – afinal, às vezes é necessário um olhar real para perceber as ligações mais ténues. Mas conseguirá fazê-lo antes de o assassino atacar de novo?

Uma visão da guerra, desde a Antiguidade até à atualidade
Ao longo da História, a guerra transformou os aspetos sociais, políticos, culturais e religiosos das nossas vidas. A guerra – passada, presente e a que poderá acontecer no futuro – é recordada e narrada para criar e reforçar um objetivo comum.
Neste livro, Jeremy Black analisa a guerra como um fenómeno global, olhando para as duas Guerras Mundiais, mas igualmente para os conflitos na China, Roma Imperial, França de Napoleão, Vietname e Afeganistão. Explora igualmente o significado da guerra e o modo como o entendimento cultural do conflito teve consequências duradouras nas sociedades em todo o mundo. O armamento, defende o autor, teve um impacto fundamental na forma como a guerra se desenvolveu: permitiu a guerra aérea e transformou-a no mar.
Numa época em que as armas do século XXI são desafiadas pelos drones e pela robótica, Jeremy Black reflete sobre o futuro da guerra e as suas consequências para o mundo.

No derradeiro volume deste clássico, Morgaine vai ao encontro do seu destino, que a coloca contra Arthur, agora seu inimigo. Ao regressar a Camelot durante o Pentecostes, Morgaine acusa Arthur de comprometer a coroa e exige que este lhe devolva a espada mágica Excalibur.
Contudo, Arthur recusa e Morgaine terá de fazer tudo para o travar, até usar as pessoas que ama para o desafiar. Quando Avalon se sente traída por Arthur, Morgaine invoca a sua magia para lançar os companheiros de Arthur numa demanda pelo cálice sagrado.
Os acontecimentos escapam ao controlo de todos quando Lancelet regressa e sucumbe de novo à sua paixão por Gwenhwyfar. Mas o Rei Veado tem outros assuntos mais importantes, como a guerra decretada por Mordred, que pretende usurpar o trono de Camelot.
Conseguirá o mundo de Avalon sobreviver ou será forçado a desaparecer nas brumas do tempo e memória?

segunda-feira, 30 de maio de 2022

O Gato que Salvava Livros (Sosuke Natsukawa)

A morte do avô de Rintaro deixou-o desligado da vida, e ainda mais isolado do mundo. A sua melhor companhia sempre foram os livros, e é neles que agora procura refúgio enquanto espera que alguém dê rumo à sua vida. Mas as respostas virão de onde menos espera, na forma de um gato falante com várias missões para lhe atribuir. Tudo em prol do seu amor maior, naturalmente - os livros.
O aspeto que mais sobressai desta leitura é inquestionavelmente o delicado equilíbrio entre o improvável e o familiar. Temos um gato falante, livros que caem do céu como neve, portas secretas, labirintos e até um livro com dois mil anos a ganhar vida. E, subjacentes a estas ideias, temos um conjunto de coisas com que qualquer leitor se poderá identificar e que convergem numa só: o amor aos livros.
Também interessante, tendo em conta todos estes elementos, é a relativa brevidade do livro. Há mesmo alguns momentos, no início, em que tudo parece ser um pouco apressado. Com o progredir da história, contudo, esta concisão ganha um novo sentido, pois reflete não só o poder universal dos livros, mas principalmente os diferentes fios que puxam cada leitor. E que, sendo diferentes, têm necessariamente de ser mais intuídos do que descritos.
Finalmente, importa salientar o impacto emocional inesperado. Não é um livro de grande dramatismo, e até os momentos mais intensos parecem ter uma certa calma a envolvê-los. Mas é uma serenidade que faz sentido, e que abrange também momentos de surpreendente ternura e de crescimento pessoal.
Relativamente breve, mas muito cativante e cheio de empatia, trata-se, pois, de um livro sobre livros que ecoará no coração de quantos adoram ler. E de uma história curiosa sobre o crescimento interior de um protagonista que nem sempre é fácil de entender, mas com quem é muito fácil simpatizar.

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Revelação de Capa - Amor de Pechisbeque


 
Como é que alguém se apaixona? Abrindo os olhos.

Quando alguém termina um relacionamento amoroso, a vida parece um verdadeiro fim do mundo. O desnorte nos sentimentos baralha-nos em tudo o resto, desde a simples ocupação dos tempos livres com os amigos, à própria estabilidade pessoal e familiar. Amor de Pechisbeque é um romance escrito à flor da pele, que nos faz descobrir vírgulas onde só vemos pontos finais.