sexta-feira, 13 de maio de 2022

Pensar Mais de Cinco Minutos Prejudica a Saúde (Marta Cabeza Villanueva)

Pensar pode significar analisar profundamente uma situação em busca de respostas, procurar novas aprendizagens, descobrir soluções para grandes desafios. Mas pode também significar dar rédea livre aos medos, deixá-los crescer ao ponto da paralisia. E é sobre o equilíbrio entre pensamento e quietude que este pequeno livro se debruça.
Facilmente se poderia dividir este livro em duas partes, uma introspetiva e outra espiritual. Assentes ambas numa experiência pessoal, que confere ao texto um registo mais próximo, a parte introspetiva olha  para o papel dos pensamentos, dos medos, das intuições e das emoções na construção de uma vida mais serena. Já a espiritual vem no seguimento da anterior, avançando, porém, para uma perceção que exige uma certa medida de fé.
Em ambas as facetas existem posições de fácil compreensão e outras que suscitam alguns sentimentos ambíguos, nomeadamente no que diz respeito à saúde física. Ainda assim, e ambiguidades à parte, é sempre possível retirar do texto pontos de identificação. Pensar demasiado, ao ponto de a questão se tornar dúvida e depois medo é algo que acontece a todos. E há nesta visão várias considerações positivas que não exigem concordância plena para serem úteis.
Ainda um último ponto a mencionar tem a ver com o aspeto visual. As ilustrações são simples, mas complementam perfeitamente o texto, dando-lhe uma etérea aura de magia que faz todo o sentido num livro sobre intuições e convicções espirituais.
Terá um impacto diferente consoante as crenças e convicções de quem o ler, mas não deixará de ser uma boa reflexão sobre os efeitos de pensar demasiado e de deixar os medos mo comando. E basta isso para fazer com que valha a pena conhecer este pequeno livro. 

terça-feira, 10 de maio de 2022

A Arte da Guerra (Sun Tzu)

As guerras do passado e as guerras do presente dificilmente poderiam ser mais diferentes, pelo menos do ponto de vista tecnológico. Ainda assim, reduzidas ao mais essencial - métodos, planos, manobras, objetivos - são também bastante evidentes as semelhanças. E prova disso é este livro milenar, cujas leis e conselhos remontam a tempos antigos, mas podem perfeitamente ser identificados na atualidade. Na guerra e não só. 
Há livros que são tão conhecidos que dispensam apresentações, e este é certamente um deles. E, ainda assim, mesmo para quem já leu outras adaptações da obra, não deixa de ter o seu lado revelador. Primeiro, pelo tom imperioso, que lembra a cada palavra que é de uma lei estratégica que se fala. Depois, pela abrangência e intemporalidade da visão, que está longe de ser aplicável apenas à guerra. E finalmente pela precisão e concisão das ideias, resumindo ao seu cerne essencial o que aparenta ser complexo.
Tendo em conta a estrutura do livro, que se debruça sobre as várias facetas da lei da guerra, é inevitável alguma repetição, pois a mesma questão surge em vários contextos. Ainda assim, sendo um livro tão conciso e imperativo, essas repetições não parecem forçadas ou maçadoras, principalmente vendo o livro como o que ele é no seu âmago: um manual para a guerra, onde é crucial que tudo seja claro. 
Finalmente, importa destacar nesta edição específica o aspeto visual, que, além de tornar o livro mais bonito, acrescenta elementos que nos transportam para o período em que terá sido escrito, e também a introdução, que, embora muito breve, abre caminho a uma leitura mais esclarecedora.
Intemporal na sua visão estratégica, abrangente apesar da concisão e aplicável a muito mais do que apenas a ação militar, trata-se, em suma, de uma leitura muito interessante. E perfeitamente atual.

sábado, 7 de maio de 2022

Enfermaria (Ana Paula Jardim)

Dificilmente a primeira imagem a surgir no pensamento ao pensar em poesia seria a de um hospital. E, no entanto, poucos locais contêm tantas histórias, tantas transformações, tantos ciclos de vida e morte, tanta emoção. E todos estes elementos compõem, de certo modo, uma forma de poesia muito singular, simultaneamente pessoal e aberta, enraizada do real, mas estendendo ramos para o sagrado, e capaz de se entranhar no pensamento com a sua proximidade indefinível. Assim é a poesia deste livro.
Ao tentar caracterizar um poema ou conjunto de poemas, contemplam-se geralmente dois aspetos: forma e conteúdo. E são aspetos que tenderão a convergir para um todo equilibrado. Neste caso, o equilíbrio é tão coeso que a linha entre as duas facetas quase se esbate, tal é a precisão com que a palavra se ajusta ao que tem para evocar.
Olhemos, ainda assim, para estas duas partes, pois ambas têm aspetos a destacar. Da forma, sobressai uma estrutura muito livre, sem normas rígidas de rima ou métrica, mas em que o ritmo resultante da cadência das palavras assume uma fluidez quase hipnótica. São, aliás, do tipo de poemas que soam especialmente bem lidos em voz alta, pois assumem, por vezes, um tom de quase profecia.
Do conteúdo, destacam-se os equilíbrios e contrastes, o entrelaçar do ambiente estéril da enfermaria com a profusão de memórias e emoções que aí habitam, da implacabilidade do ciclo da vida com as perceções do sagrado, da presença num local de vida e morte de outras vidas passadas e futuras. Há algo que ecoa na alma de forma quase inconsciente, com esta fusão de imagens singulares e estranhamente familiares.
E o que fica então deste livro é uma contemplação da vida no seu mais frágil e persistente, construída com uma voz única e fascinante cujos ecos ficam na memória bem depois de terminada a leitura. Breve, mas muito belo, um livro inesquecível. 

sexta-feira, 6 de maio de 2022

Outcast, Vol. 6: A Escuridão Cresce | A Fusão (Robert Kirkman e Paul Azaceta)

O fim está próximo e o impasse que parece ter-se instalado não tardará a quebrar, em virtude da ação de ambos os lados. Mas a dúvida e o cansaço parecem ter-se apoderado de todos e nem Kyle Barnes nem os que o rodeiam sabem como enfrentar o fim iminente. Uma coisa é certa, ainda assim: deixou de ser possível continuar a fugir. E nada ficará igual quando o derradeiro confronto se materializar finalmente.
Parte do que tornou esta série tão intensa foi, desde o início, a sua singular forma de luta entre o bem e o mal. E essa luta foi crescendo de intensidade de volume para volume. Agora, chegados ao fim da história, tudo atinge o seu crescendo final, carregado de movimento, de ação, de surpresas e de uma poderosa capacidade de emocionar.
Também o aspeto visual foi especialmente importante, e atinge uma nova dimensão nesta etapa final. O contraste entre luz e trevas chega a atingir momentos ofuscantes. Os momentos de maior impacto estão cheios de movimento e de expressão. Os rostos retratam na perfeição as emoções das personagens e o horror dos elementos menos humanos. E os pequenos pormenores destacados ao longo do livro salientam a complexidade do todo.
Olhando para o enredo propriamente dito, destacam-se três pontos: o final perfeitamente adequado, que dá resposta a todos os pontos essenciais, mas deixa o suficiente à imaginação do leitor; a forma como as repercussões do passado não desaparecem depois de tudo concluído, o que torna tudo mais real, pois tudo na vida tem consequências; e o desenvolvimento do aspeto sobrenatural, que é simultaneamente universal e singular na sua abordagem ao eterno conflito entre o bem e o mal.
Tudo se resume, portanto, a um final que atinge e supera as altas expetativas geradas ao longo da viagem. E que deixa ao mesmo tempo uma certa saudade e uma poderosa sensação de missão cumprida. Como deve ser, naturalmente. 

terça-feira, 3 de maio de 2022

Divulgação: Novidades Saída de Emergência

Este não é um diário comum. Pode utilizá-lo todos os dias. Ou não. Também pode deixá-lo por uns tempos e depois regressar a ele. Ou não.
No estilo a que já nos habituou, Mark Manson apresenta o diário que nos vai ajudar a pensar sobre temas profundos com base em A Arte Subtil de Saber Dizer Que Se F*da.
Os conselhos de Manson são complementados com exercícios que nos vão fazer rir e refletir sobre o que é realmente importante.
Com a sua irreverência única, Manson ajuda-nos a encontrar respostas simples para questões que são aparentemente complexas. Com espaço para as próprias reflexões, este diário permite-nos ver os momentos-chave da vida como as oportunidades de crescimento que eles realmente são.

As fronteiras de Huaxia são defendidas por máquinas de guerra gigantescas movidas pela energia vital de um piloto e da sua concubina. Os combates são violentos e, se os homens sobrevivem, as mulheres são quase sempre sacrificadas. Apesar de saber o futuro trágico que a espera, Zetian alista-se no exército com apenas um objetivo: a vingança.
Graças à sua força psíquica excecional, Zetian sai vitoriosa do confronto e torna-se na Viúva de Ferro, juntando-se à elite de pilotos e fazendo par com Li Shimin, o piloto mais perigoso e controverso de Huaxia.
Agora que sabe do que é capaz, Zetian vai utilizar todas as armas para permanecer viva e lutar contra o sistema patriarcal que governa a sociedade e que despreza a vida das mulheres...

Nos anos que se seguem à coroação de Arthur, a rainha Gwenhwyfar continua as manipulações para assegurar a lealdade do seu marido à igreja cristã, enquanto a sacerdotisa Viviane decide confrontar Arthur pela traição contra Avalon.
Nos bastidores, Morgaine planeia o casamento de Lancelet, que ameaça sucumbir ao desespero pelo triângulo amoroso em que se vê envolvido. Quando a rainha Gwenhwyfar descobre esse plano, jura vingança. Morgaine dedica-se a fortalecer a causa de Avalon enquanto as sacerdotisas tudo farão para resgatar a alma da Grã-Bretanha contra a maré insurgente da Cristandade. Mas que efeitos terá a chegada do jovem Gwydion, filho de Morgaine e Arthur? Irá correr em auxílio do rei ou libertar o caos?

Mary Russell, a brilhante aprendiza de Sherlock Holmes, está prestes a receber uma herança considerável. Finalmente independente, apaixonada pelo divino e pelo trabalho de investigação, o seu mistério mais desconcertante parece agora envolver Holmes e o surgimento de uma afeição profunda pelo aposentado detetive.
Mas as atenções de Russell estão igualmente focadas no Novo Templo em Deus e na sua líder, Margery Childe, uma carismática sufragista e mística, que aparentemente vive muito acima das suas posses. Quando quatro sufragistas do Templo morrem pouco depois de terem alterado os seus testamentos, Russell e Holmes iniciam uma discreta investigação que levará a jovem a enfrentar um perigo maior do que alguma vez imaginou.

Numa grande mansão inglesa, uma mulher seduz uma das figuras mais poderosas e influentes do país – uma manobra cuidadosamente planeada com um objetivo mortal…
De férias em França, Tom Wilde resgata um antigo aluno do campo de detenção de Le Vernet, ao mesmo tempo que os tanques alemães se aproximam da fronteira com a Polónia. Entretanto, o paquete Athenia, com vários americanos a bordo, é atacado no Atlântico. Goebbels defende que o responsável é Churchill, numa jogada preparada para incriminar a Alemanha e atrair a América para a guerra.
Enquanto as várias peças de uma conspiração internacional estão em movimento, Tom Wilde enfrenta um grande perigo pessoal. Quem é Marcus Marfield? E onde reside a sua lealdade?

Segundos depois de levar o cálice aos lábios durante a celebração de um funeral, o padre Miguel Flores morre no altar assassinado pelo sangue de Cristo. A tenente Eve Dallas confirma que o vinho consagrado continha cianeto suficiente para derrubar um rinoceronte. Quem mataria um padre de forma tão súbita e horrível? E quem poderia ter acesso privilegiado ao vinho da comunhão?
A autópsia revela detalhes surpreendentes que sugerem que o «padre Flores» não era quem parecia. Enquanto reúne as pistas que sugerem roubo de identidade, ligações a gangues e um ato profundamente pessoal de vingança, Eve espera apanhar quem cometeu este ato profano. Contudo, a descoberta de um segredo obscuro poderá trazer de volta os demónios de Eve e deitar por terra toda a investigação…

Estará a História desatualizada?
A resposta a esta questão é sim, se considerarmos a História como conhecimento histórico, como resultado do estudo e da investigação sobre o passado. A análise de novas fontes, perspetivas e abordagens permite redefinir o conhecimento que temos, apesar de muitos mitos e ideias da História de Portugal continuarem a ser repetidos e permanecerem no imaginário popular.
Neste sentido, o objetivo deste livro é o de atualizar muitas destas ideias, desmontando, dentro do possível, alguns destes mitos. Tomando por base 29 temas da História de Portugal, desde Viriato até ao legado da memória do império colonial, 28 autores procuraram redefinir aquilo que sabemos sobre estes assuntos. Um livro para quem quer perceber os vários aspetos de uma História longa e complexa, e não tanto os muitos e longos debates académicos que existem sobre cada assunto.

A 25 de maio de 1977, um filme de ficção científica com um orçamento elevado e problemas de produção estreou em apenas 32 cinemas americanos. Idealizado, escrito e realizado pelo, até então, pouco conhecido George Lucas, Star Wars bateu recordes de bilheteira e deu início a uma nova forma de produzir, vender e comercializar filmes.
Lucas foi igualmente responsável por outro blockbuster – Indiana Jones –, transformando completamente o universo dos efeitos especiais e sonoros. A sua ambição e visão inovadora estiveram na origem de empresas revolucionárias como a Pixar e a Lucasfilm.
Brian Jay Jones conta detalhadamente a incrível trajetória do homem que criou Darth Vader, Han Solo e Indiana Jones. Em George Lucas: Uma Vida, os colegas, familiares e concorrentes de Lucas oferecem um olhar fascinante sobre a vida do cineasta, dos seus sucessos e fracassos profissionais e sobre a criação de um império cinematográfico independente com uma influência incomparável.

Laura pode ter deixado subitamente Shane Dominic há mais de uma década, mas ele nunca a esqueceu ou deixou de se questionar sobre as razões da separação. Até que o homicídio de um líder criminoso coloca Laura novamente no seu caminho e dá a Shane uma oportunidade única para descobrir o que aconteceu – nem que para isso tenha de utilizar os meios mais ardilosos para descobrir a verdade.
Os sentimentos de Laura podem ainda ser profundos, mas ela nunca revelará os seus segredos – uma promessa desesperada que fica comprometida quando Shane a mantém refém numa cabana isolada e a submete aos seus caprichos eróticos. À medida que as defesas de Laura cedem, ela não tem escolha senão confiar a Shane uma verdade chocante que os vai expor a um perigo explosivo.

Durante a Pax Romana, as viagens e o turismo conheceram um estrondoso desenvolvimento no Império Romano. Esta estabilidade permitia deslocações nas suas várias formas: por terra e mar; em representação oficial, em estudo ou em turismo; de oficiais, de ricos proprietários, de artistas e artesãos, de enfermos. As cidades adquiriram um novo nível de cosmopolitismo e a religião acolheu novas influências.
Viajando através dos grandes centros culturais, passando pelos antigos monumentos e pelas províncias mais afastadas, Falx explora o vasto Império Romano numa jornada que permite ao leitor mais sedentário experienciar com vívido detalhe a vida no Império.

A paz na Europa tem sido historicamente efémera. Desde o século XVIII, a discussão intelectual e política em busca de uma paz duradora incluía uma ideia de unificação.
Através de filósofos como Rousseau e Kant, e de estadistas como o Czar Alexandre I, Woodrow Wilson, Winston Churchill, Robert Schuman e Mikhail Gorbachev, Stella Ghervas apresenta‑nos cinco conflitos‑chave nessa busca por sistemas de paz na Europa: a Guerra da Sucessão Espanhola, as guerras napoleónicas, as duas guerras mundiais e a Guerra Fria. Cada momento gerou um renovado «espírito» de paz entre as forças vivas, procurando construir mecanismos e instituições capazes de prevenir guerras futuras.
Procurando uma continuidade desde os ideais do Iluminismo, passando pelo Concerto das Nações do século XIX, até às instituições da União Europeia, este livro apresenta a paz como o valor que marcou uma ideia de Europa unificada muito antes de a União Europeia nascer.

James Cordier é um mestre do disfarce, um ladrão brilhante e um amante de primeira classe. A sua derradeira missão é resgatar um pacote de cartas incriminatórias que estão na posse de uma mulher caída em desgraça. Só depois poderá regressar a Londres e deixar para trás uma vida de intrigas.
Desprezada pela sociedade depois de um divórcio escandaloso, Francesca Bonnard é a mais famosa cortesã de Veneza. Bela, inteligente e educada, ela é versada nas artes da sedução, e os homens são apenas meios para chegar a um fim. E o próximo candidato está à distância de um passeio de gôndola…
Contudo, James não é o único à procura das cartas. E tudo se complica quando a química explosiva dá lugar a um duelo de sedução. No entanto, arriscar tudo pode valer a pena para alcançar o verdadeiro amor.

O tempo é de turbulência política à medida que o rei Eduardo começa a perder o controlo sobre os seus sucessores e apoiantes. Há dois herdeiros e dúvidas sobre a frágil união dos reinos do Wessex e da Mércia. Apesar das tentativas para o comprometer na luta política, Uhtred de Bebbanburg só está interessado na sua amada Nortúmbria – e na sua independência em relação ao Sul.
Contudo, um juramento é um compromisso quase sagrado, e tal promessa foi trocada entre Uhtred e Æthelstan, agora um potencial rei. Uhtred tentou ignorar as exigências do juramento e permanecer na sua fortaleza no Norte, mas um ataque e um inesperado pedido de ajuda levam-no até ao Sul, para a batalha pelo reino… e pelo destino de Inglaterra.

O Segredo do Bem-Estar Instantâneo (Dra. Olivia Remes)

Atingir um estado de bem-estar na vida é um objetivo praticamente universal, mas nem sempre é fácil concretizá-lo e muito menos mantê-lo. Das pequenas preocupações aos grandes traumas, passando por perdas, separações e inseguranças, são muitos os caminhos que conduzem à ansiedade. Ainda assim, há formas de contrariar essas tendências, e é sobre elas que este livro se debruça, numa visão sucinta mas interessante da ciência das emoções.
O primeiro aspeto a salientar neste livro será inevitavelmente a organização. Dividido em dez temas, parte do aparentemente mais ligeiro e vai avançando para questões de impacto mais profundo, o que permite uma perspetiva de evolução gradual. E, ainda assim, com a sua estrutura comum aplicada à diferentes facetas, cada secção é um todo independente, respondendo a uma pergunta específica.
Sendo um livro relativamente breve, é expectável a sua concisão. E dividido entre a ação básica, as bases científicas e algumas estratégias, consegue, apesar de abranger o essencial, deixar uma certa curiosidade em aprofundar o assunto. Neste sentido, o livro acaba por ser também um bom ponto de partida da perspetiva científica, pois sao inúmeras as referências citadas ao longo do texto.
Claro que, numa abordagem tão breve, poderá ficar porventura a sensação de uma visão demasiado fácil. Mas, olhando bem, talvez não seja bem assim, pois as estratégias podem parecer simples, mas fazem sentido sobretudo de uma perspetiva maior. E, assim sendo, este é, mais uma vez, apenas o ponto de partida.
O que fica, então, desta leitura é a impressão de uma visão sucinta, mas muito clara, sobre os entraves que podem surgir ao bem-estar e como lidar com eles. Sem soluções perfeitas, mas com uma boa base para reflexão e crescimento num caminho que cabe a cada um percorrer. 

domingo, 1 de maio de 2022

Verdade ou Consequência (M. J. Arlidge)

A violência parece estar a intensificar-se na cidade, com uma vaga de crimes brutais e sem aparente explicação. E, à medida que os casos se acumulam, a reputação da polícia vai também sendo fragilizada. Helen Grace tem em mãos toda uma sucessão de casos desconcertantes, além de uma perigosa divisão interna provocada pelo seu outrora amante e agora inimigo. A tensão é sufocante. Mas, com o intensificar da violência, começam também a surgir elos de ligação. E o que pareciam ser casos isolados são, na realidade, fios de uma teia complexa.
Parte da grande força desta série - e escusado será dizer que este livro não é exceção - é a inesgotável capacidade de surpreender. Desde as circunstâncias iniciais dos casos aos desenvolvimentos a nível de relações internas, e sem esquecer, naturalmente, a progressão das pistas, tudo é inesperado e impressionante, abrindo caminho a um crescendo de intensidade que faz com que seja praticamente impossível não querer saber o que acontece a seguir.
Outra das grandes qualidades, e também recorrente nesta série, é a construção das personagens. Já são habituais as personagens que é fácil adorar, e outras que adoramos odiar. E Helen Grace é Helen Grace, em toda a sua imperscrutável glória. Mas é também impressionante como cada livro traz à tona novas facetas, novos elos de ligação e novos obstáculos a superar. Tanto nas personagens já conhecidas como nas novas, há sempre desenvolvimentos intensos e uma complexidade subjacente que torna os comportamentos imprevisíveis.
Quando ao caso específico deste livro, importa destacar dois elementos. Primeiro, o equilíbrio entre complexidade e intensidade, que mantém o mistério vivo até ao fim e serve também de base a vários momentos de ação fulgurante. E depois que, ainda que, como é característico desta série o caso tenha uma linha central independente, a história global está longe de estar terminada, o que deixa uma vontade bastante irresistível de ler o próximo volume o mais rapidamente possível.
Intenso e viciante, com um equilíbrio perfeito entre tensões familiares e novos desafios e a imprevisibilidade que tão bem define as bases desta série, eis pois mais um volume que atinge e supera as expectativas. E que cativa do início ao seu poderosíssimo fim. Brilhante, como habitual. 

sábado, 30 de abril de 2022

À Procura de Anne Frank (Ari Folman e Lena Guberman)

Quando uma forte tempestade faz com que um raio atinja o local onde o diário de Anne Frank está guardado, a sua amiga imaginária, Kitty, desperta para a vida. Inicialmente não sabe onde está nem o que aconteceu à amiga, mas o diário está mesmo à mão para a lançar na busca de respostas. Só que essa busca lançá-la-á também num mundo real onde a sua amiga está em toda a parte, mas a mensagem das suas palavras parece ter sido esquecida. E terá de ser Kitty a relembrá-la...
Parte do que torna esta leitura tão marcante é a forma como põe em evidência não só as atrocidades do passado, mas também as violências e indiferenças do presente. Em busca da amiga, Kitty descobre não só o que lhe aconteceu, mas também o que continua a acontecer no mundo. E assim, este percurso fluido e emotivo é também uma poderosa reflexão sobre onde está, afinal, a suposta bondade humana perante o impensável.
Também o aspeto visual é especialmente cativante, com rasgos de movimento a conferir fluidez ao percurso, uma expressividade notável nos rostos das personagens e uma beleza desoladora e fascinante em certos cenários - sobretudo os imaginários. Há como que uma harmonia que transborda das páginas e que dá ainda mais força a uma história já poderosa.
Ainda um último ponto a destacar tem a ver com as circunstâncias singulares de Kitty e a forma como estas se repercutem no enredo, suscitando alguns momentos surpreendentes e um final agridoce, mas perfeitamente adequado.
Uma mensagem intemporal e mais necessária do que nunca, um percurso que dá nova vida a uma história sobejamente conhecida e uma arte que realça todas as singularidades desta história tornam este livro memorável em todas as suas facetas. E muito necessário também. 

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Que Túmulo em que Talhão (João Moita)

Da decomposição e ressurgimento da terra, transbordante de vida e de morte em equilíbrios ora fascinantes, ora macabros. De paisagens silentes e crueldades quotidianas, vistas por um olhar impávido que não expressa sentimentos, mas visões. De vida que se transforma em morte, desertos que se transformam em água, silêncios que o som da natureza rasga para depois voltar a fundir. De tudo isto é feita esta poesia, contemplando a morte através da vida. Ou vice-versa.
Provavelmente o aspeto mais surpreendente deste livro, e também o mais memorável, é a sua singularidade na construção das imagens. É uma poesia que vive fundamentalmente de paisagem, de natureza, ainda que exista alguma presença humana de vez em quando. É uma natureza feita maioritariamente de elementos razoavelmente normais. Surpreende, portanto, a forma como esta contemplação da paisagem se assume como tudo menos bucólica e harmoniosa. É um olhar à decadência através do que ainda existe, um traçado sombrio de abismos futuros através da serenidade presente. E essa visão soturna tem algo de fascinante - como que um grande memento mori que lembra também que ainda há vida.
Também bastante surpreendente é o facto de todo este contraste resultar de uma poesia que é, do ponto de vista estrutural, aparentemente muito simples, com os seus versos curtos e sem grandes imposições em termos de métrica. Aparentemente simples, contudo, porque a verdade é que há um equilíbrio nesta construção, uma fluidez que quase projeta mentalmente as imagens, e uma cadência na construção da paisagem que facilmente se entranha na memória.
Não é o tipo de poesia que apela às emoções, é certo. É mais como que uma contemplação. Mas também isto faz parte da sua singularidade, esta perceção do mundo não de uma forma emocional, mas vendo-o nos seus equilíbrios e na forma como persistem, mesmo na ausência da sentimentalidade humana.
Singular na paisagem, na voz e na intensidade dos contrastes que confere aos cenários que traça, trata-se, em suma, de um livro que, não sendo propriamente emotivo, facilmente se torna memorável. E de uma forma única de contemplar os ciclos naturais da vida.

terça-feira, 19 de abril de 2022

Branco em Redor (Wilfrid Lupano e Stéphane Fert)

Quando Prudence Crandall decide receber uma rapariga negra na sua escola, está muito longe de imaginar as ondas de choque que isso terá - e a forma como os verdadeiros rostos da sua comunidade se irão revelar. Pois há quem ache que a distância é sagrada e que as aspirações são um exclusivo dos brancos. Ainda assim, Prudence tem um plano para dar às suas alunas o conhecimento por que anseiam. E está disposta a lutar por isso até ao fim.
Uma das primeiras coisas a salientar sobre este livro é o impacto emocional devastador. Dado o tema e a história, é de esperar uma impressão forte, mas a verdade é que todo o livro é um tratado sobre a forma como o ódio à diferença torna visíveis os limites da crueldade humana - ou a falta deles. Há, pois, momentos verdadeiramente angustiantes nesta história, e uma grande reflexão subjacente a eles. E, sendo embora a história de um período específico, as questões que suscita mantêm a atualidade.
Se a história é notável, a arte não lhe fica atrás, com um toque ligeiramente impressionista a realçar o impacto das situações com mais movimento, uma expressividade que ora confere leveza, ora realça a intensidade e contraste eficaz de luz e sombras que parece enfatizar ainda mais a emoção.
Ainda um último ponto a referir é que, tendo em conta o facto de ser uma história real, certas partes não são propriamente imprevisíveis. Ainda assim, isso não retira qualquer intensidade à história, chegando mesmo a despertar aquele desejo de um final diferente que nasce, por vezes, da proximidade gerada durante a leitura.
Poderosíssimo no tema, visualmente fascinante e carregadinho de emoção e de material para reflexão, trata-se, em suma, de um leitura memorável. E de uma análise certeira ao que a humanidade tem de menos humano.

segunda-feira, 11 de abril de 2022

O Rapaz da Fotografia (Nicole Trope)

Há seis anos, o filho de Megan desapareceu. Agora, está de volta, mas está longe de ser o rapazinho doce que foi raptado pelo pai. E há muitos mistérios em torno do seu regresso, a começar pelo incêndio que matou Greg e deixou Daniel livre para voltar para a mãe. O que devia ser um reencontro feliz cedo se revela um poço de tensões. Mas serão os comportamentos invulgares de Daniel fruto do trauma ou laivos de um segredo mais sombrio?
Um dos aspetos mais empolgantes deste livro é a capacidade da autora de manter uma tensão constante ao longo de toda a história. Desde a intensidade do reencontro à tensão da reconstrução da relação, sem esquecer os laços emocionais e os jogos de mentiras e manipulação, há sempre uma sensação ominosa a pairar sobre as personagens e um mistério que se prolonga mesmo até ao fim, tornando quase irresistível a necessidade de continuar a ler até à manifestação das respostas.
Também a estrutura do livro contribui para o tornar viciante, com os contrastes poderosos entre as diferentes perspetivas e os diferentes momentos da linha temporal. Os capítulos vistos pelos olhos de Daniel são particularmente marcantes, pois a forma como a autora reflete os impactos da manipulação é particularmente impressionante, ao ponto de despertar sentimentos fortes em relação às personagens.
E também a construção das personagens se destaca, com figuras que são fáceis de odiar, mas cuja força motriz não deixa de ter as suas complexidades, e outras que facilmente despertam empatia, mas cuja faceta falível as humaniza. E claro, há quem não seja o que parece ser, o que contribui para a surpresa do final.
Carregado de tensão e de situações complexas, com uma aura de mistério que cresce em intensidade até culminar num final poderoso e com a medida certa de material para reflexão, trata-se, em suma, de um livro empolgante e que prende da primeira à última página. Uma belíssima história, portanto. 

sexta-feira, 8 de abril de 2022

Ascender, vol. 2 - O Mar dos Mortos (Jeff Lemire e Dustin Nguyen)

A devastação do fim das máquinas deu lugar a uma forma de brutalidade diferente, causada por monstros e magia. E, como sempre, não faltam inocentes a sofrer as consequências. Mila julga ter perdido o pai e a única opção que lhe resta é uma fuga desesperada do planeta. Já Andy continua vivo, mas numa situação delicada. E enquanto cada um tenta encontrar o caminho para a segurança possível, outras forças começam a manifestar-se. A liderança da Mãe não é assim tão incontestada. E há fios do passado a estender-se para o futuro...
Parte do que este livro tem de impressionante, à semelhança do primeiro volume, é a forma como conjuga múltiplas facetas e diferentes fios narrativos num equilíbrio perfeito. Acompanha diferentes personagens, cada uma com as suas lutas e os seus fantasmas. Percorre diferentes momentos da linha temporal, o que implica mudanças drásticas de cenário e de sistemas em vigor. E oscila também entre diferentes impactos emocionais, com laivos de humor, ação intensa e alguns rasgos brilhantes de emoção.
Esta diversidade reflete-se também na componente visual, com a expressividade dos rostos a contrastar com a devastação dos cenários, o movimento das cenas de ação a complementar a quietude possível das memórias e os jogos de cor e de sombra a realçar os traços mais vincados de cada momento. Além disso, há também uma mudança de tons predominantes entre os diferentes cenários, o que salienta o facto de, apesar de bastante centrada nas personagens, esta história decorrer num mundo vasto.
Finalmente, importa salientar que, embora sendo apenas o segundo volume desta série específica, é bastante evidente que faz parte de um contexto bastante maior. É, pois, importante conhecer a série Descender para apreciar plenamente os laços e ligações desta história, ainda que tudo pareça, à primeira vista, ser bastante diferente.
Intenso, empolgante e equilibrado, trata-se, em suma, de um novo volume à altura das expetativas, capaz de prender, surpreender e emocionar em todos os momentos certos. Memorável, como sempre. 

quinta-feira, 31 de março de 2022

Divulgação: Novidades Saída de Emergência

A cada momento há um cheiro, uma cor, um sentido que é a Índia.

Em 1961, Pasolini visitou a Índia pela primeira vez. As emoções e sensações vividas são tão intensas que o levam a escrever este diário de viagem. Pasolini vagueia atentamente pela caótica realidade que encontra, uma Índia que é terna e bárbara, mágica e miserável, oprimida por tradições em declínio e, ainda assim, vibrante de cor e vida. Os templos de Benares, as noites de Bombaim, todo o encanto de uma terra fascinante e, ao mesmo tempo, o horror da existência que aí nos conduz são transmitidos com a originalidade de um dos maiores escritores italianos.

Tudo o que ainda ignoramos sobre o nosso estranho e misterioso Universo

A nossa compreensão do que é o mundo está cheia de falhas. Não de pequenas omissões que possam ser facilmente ignoradas, mas de enormes lacunas nas nossas noções básicas de como o mundo funciona:

• Porque é que o Universo tem um limite de velocidade?
• Porque é que não somos todos feitos de antimatéria?
• O que são o espaço e o tempo?
• O que é a matéria negra e porque é que nos ignora?

A resposta a todas estas perguntas é sempre a mesma: não fazemos ideia.
No entanto, como Jorge Cham e Daniel Whiteson demonstram com humor, clareza e um talento singular para explicar coisas complicadas de forma simples, perguntar é tão importante e fascinante como procurar respostas.
Este guia ilustrado dos grandes mistérios da Física expõe tudo o que sabemos e explica como o Universo é um imenso território desconhecido que ainda é nosso para explorar.

Uma extraordinária odisseia espiritual de um homem em busca de si mesmo.
Em 1973, Peter Matthiessen e George Schaller viajaram até às remotas montanhas do Nepal para estudarem o Carneiro-azul e observarem o raro e mítico Leopardo-das-neves. Matthiessen estava igualmente numa jornada espiritual para encontrar o lama de Shey no Mosteiro de Cristal. 
Com o desenrolar da viagem, Matthiessen descreve o seu caminho interior e exterior, aprofundando a compreensão budista da realidade, do sofrimento, da impermanência e da beleza.
Um relato extraordinário de uma viagem física e espiritual que se converteu numa verdadeira peregrinação pela essência da vida.

Um pedido de ajuda do Vice-Rei Egípcio, lança Benjamim Tormenta no caso mais horrendo da sua carreira.
Benjamim Tormenta, detetive do oculto da Lisboa oitocentista, é o homem a quem recorrer quando surgem mistérios que mais ninguém ousa investigar.
A capital do império português continua a ser uma cidade cheia de segredos e perigos, mas desta feita é chamado ao Porto devido aos avistamentos horrendos no nevoeiro que cobre a cidade de madrugada. E também é chamado ao Egipto, pelo próprio vice-rei, para resolver uma praga que aflige aquela nação milenar e que lança o bruxeiro na aventura mais mortífera da sua vida.
Mas os maiores horrores para descobrir talvez sejam aqueles ocultos no passado misterioso do detetive, bem como os do demónio milenar que o habita.
Prepare-se para uma viagem inesquecível ao ano de 1874, onde as trevas escorrem de cada fresta.

Kurt Austin e a equipa NUMA veem-se envolvidos numa conspiração sinistra que pode destruir o planeta...
No início da Segunda Guerra Mundial, a Luftwaffe realizou uma expedição à Antártida para aí instalar uma base militar. Apesar de nunca ter concretizado o objetivo, o que os nazis encontraram revelou-se perigoso… e com implicações sinistras para o futuro.
Na atualidade, Kurt Austin e Joe Zavala embarcam para a Antártida depois de uma ex-colega da NUMA desaparecer na região. É lá que descobrem a foto da expedição da Luftwaffe e são envolvidos numa conspiração que dura há décadas e que envolve uma terrível arma produzida pelo homem que pode levar o mundo a uma nova Idade do Gelo.

A maior aventura do mundo começa quando o mundo acaba.
Enfrentar a aniquilação às mãos dos vogons enquanto procura uma chávena de chá? Só poderia acontecer a Arthur Dent e aos seus invulgares companheiros na sua desesperada busca por um lugar para comer, enquanto viajam pelo espaço movidos pela pura improbabilidade.
Entre os vários companheiros de Arthur encontramos Ford Prefect, um amigo de longa data e pesquisador de campo do guia À Boleia Pela Galáxia; Zaphod Beeblebrox, o ex Presidente da galáxia com duas cabeças e três braços; Tricia McMillan, uma refugiada da Terra (e que alterou o seu nome para Trillian); e Marvin, o deprimido androide. O seu destino? O melhor lugar para uma noite de entretenimento apocalíptico onde a comida fala por si (literalmente).
Conseguirão lá chegar? É difícil de dizer. Mas temos de considerar que o guia À Boleia Pela Galáxia apagou a expressão «Futuro Perfeito» das suas páginas…
Lidando com temperaturas negativas, avalanches e tempestades, Kurt e a equipa NUMA têm de travar a conspiração e descobrir esta arma secreta que tem o poder de congelar o mundo para sempre…

terça-feira, 29 de março de 2022

Festas Galantes (Paul Verlaine)

De um amor que é simultaneamente frívolo, espiritual e erótico, que consome e se dispersa entre os deambulares das noites. De um amor que divaga entre festas, passeios, cortejos, contemplações à luz da Lua e em que os cenários são tão fundamentais como a raiz do coração. De um amor que é palavra e ritmo, mas também imagem e paisagem. É desse amor que são feitas estas Festas Galantes.
É inevitável, ao falar sobre este livro, começar por referir o aspeto mais óbvio: a beleza visual. É um livro que cativa ao primeiro contacto, com a sua estrutura cuidada e a abundância das ilustrações. E é também um livro em que o visual completa a palavra, dando-lhe como que um cenário onde imaginar o contexto dos poemas. No fundo, poesia e arte complementam-se. E é isso, acima de tudo, o que fica na memória.
Claro que importa também falar sobre os poemas propriamente ditos. Neste aspeto, sobressai a singularidade da voz, numa poesia de amor que não divaga muito pelo sentimento puramente expresso, preferindo manifestá-lo pela melancolia ou pela exuberância dos cenários, pelos episódios pitorescos e pelas presenças que se vão repetindo. É uma forma diferente de contemplar o amor, menos hino e mais observação. Mas também uma forma fascinante, à sua maneira.
E é uma poesia com uma estrutura muito vincada, onde nem sempre há rima, mas há sempre ritmo, e em que as vozes das personagens - porque personagens há - se confundem com a voz do poeta na sua contemplação do mundo e das suas festas galantes. Como um concerto de vozes, em suma, em que algumas criam mais proximidade do que outras, mas em que todas têm os seus pontos de interesse.
Breve, belo e fascinante - assim é este livro singular, de uma poesia que não se esgota nos versos e que contempla o mundo através de simplicidades surpreendente... intrincadas. Muito interessante, em suma.

segunda-feira, 28 de março de 2022

A Menina e a Gata (Mala Kacenberg)

Nascida numa família numerosa na pequena cidade de Tarnogród, Mala Szorer podia não ter uma vida de riquezas, mas tinha uma vida feliz, com a sua família, as suas ocupações e a sua fé. E inicialmente, parecia que isso nunca iria mudar, embora houvesse rumores, olhares desagradáveis, comportamentos estranhos. Mas a mudança acabou por chegar, primeiro com a transformação da cidade num gueto, depois com a deportação de parte dos seus habitantes e depois com atos ainda mais brutais. E é então que Mala tem de aprender a sobreviver. Primeiro, para alimentar a família, arrisca-se a tirar a estrela amarela para ir à procura de comida. Depois, acontecido o pior, a luta passa a ser pela própria sobrevivência. Ainda assim, nunca está realmente sozinha. Tem a companhia de Malach, a gata que a segue para toda a parte e cuja intuição parece ser sobrenatural.
Todas as histórias de sobrevivência ao Holocausto têm o seu sombrio elo comum. Mas todas têm também as suas particularidades, seja no percurso de quem as viveu, na forma que escolheram para as contar ou até naquilo que os levou a lutar pela sobrevivência. A história deste livro diverge das histórias mais comuns no sentido em que a sua protagonista nunca passou pelos campos de concentração. Assim, o seu percurso é não só de resistência às adversidades, mas também de luta para evitar a captura. E esta diferença é, aliás, destacada na própria história, quando, depois de terminada a guerra, Mala encontra os outros sobreviventes.
O que marca neste livro é, portanto, desde logo, a história completa. É impossível não admirar a luta pela sobrevivência de Mala, o seu apego a fé, o engenho com que lida com as situações mais difíceis. Mas sobressai também um ponto particularmente marcante. Lutar pela sobrevivência implica, às vezes, ter de tomar decisões quando nenhuma decisão é moralmente perfeita, agir de formas que, em circunstâncias normais, seriam repreensíveis. E a autora não foge a estes aspetos do seu percurso. Descreve-os abertamente, incluindo os dilemas morais associados, numa exposição frontal que realça a dimensão das dificuldades e a humanidade de quem as viveu.
Existem alguns episódios que são contados de forma um pouco concisa, como que a deixar a ideia de que tudo foi resumido ao estritamente essencial. Mas faz sentido que assim seja, até porque, segundo se deduz da leitura, esta história foi um registo construído depois dos acontecimentos. Não é um diário, são memórias. E as memórias nem sempre são - nem têm de ser - exaustivas.
História de sobrevivência e de superação, de um período negro da história e das marcas pessoais que deixou, trata-se, em suma, de um relato marcante e franco de uma luta pela sobrevivência em circunstâncias inimagináveis. É impossível não ficar com este livro no pensamento.

sábado, 26 de março de 2022

A Família Monstro - Receita em Chamas (Bruno Matos e Raquel Carrilho)

Podem ser todos muito diferentes, mas se há algo que é inquestionável sobre os membros da família Monstro é que são muito unidos. Por isso, a descoberta, logo ao acordar, de que a Mamã Ogre desapareceu, lança os restantes membros num frenesim de ação. A cozinha está virada de pernas para o ar e o pior de tudo é que a receita secreta da famosa tarte de amêndoa também foi roubada! Resta-lhes, pois, seguir a pista de uma misteriosa pena deixada para trás e descobrir o que realmente se passa. Antes que as consequências sejam dramáticas...
Sendo este já o quarto volume da série, uma das primeiras coisas a sobressair é o equilíbrio entre novidade e familiaridade. As personagens continuam iguais a si mesmas, mas a entrada de novos elementos em cena acrescenta algo de novo às já bem conhecidas relações desta família. Além disso, embora seja certo que têm sempre uma aventura à espera, e que isso envolverá perigos, pensamento rápido e uma certa corrida contra o tempo na fase final (como sempre), as particularidades da história são sempre diferentes, seja por acrescentarem um monstro novo, um local diferente... ou ambas as opções, como é o caso deste volume.
Mantém-se também a já habitual simplicidade, mas não em demasia, o que significa que, embora pensado para os mais novos, proporciona uma boa leitura a leitores de todas as idades. E, claro, o equilíbrio entre ação, emoção, uma boa dose de humor e uma mensagem positiva. Além de que, neste caso, temos um monstro com um lado afável e um lado terrível - o que serve também para lembrar que a linha entre o bem e o mal nem sempre é assim tão nítida e irreversível.
E, claro, escusado será dizer que se mantém também o belo equilíbrio entre texto e ilustração, com a expressividade das personagens e a diversidade dos monstros a tornarem mais apelativa a aventura destas personagens. E um outro pormenor delicioso - as adaptações de certos elementos do mundo real, que reforçam a tal sensação de familiaridade.
Trata-se, em suma, de mais uma bela aventura numa série que corresponde sempre às expetativas. Simples, mas sempre envolvente, uma história capaz de cativar todos os leitores, seja pela aventura propriamente dita, pela nostalgia de tempos mais simples... ou mais uma vez, por ambas. Porque não?

quinta-feira, 24 de março de 2022

Spaghetti Bros - Livro 3 (Carlos Trillo e Domingo Mandrafina)

Dizer que os irmãos Centobucchi são uma família estranha será provavelmente um eufemismo. Basta olhar para as suas ocupações - um padre, um polícia, uma atriz de cinema mudo, uma assassina profissional e um mafioso. Mas como se não bastasse esta singularidade, têm também a mais improvável de todas as improváveis relações familiares. Amam-se... e às vezes odeiam-se. Cometem uns contra os outros as mais graves transgressões - e zangam-se pelas mais pequenas. E, pelo caminho, a vida vai mudando, as situações vão-se tornando mais difícil. Há vida e morte, esperanças e desilusões, palavras dadas e promessas por cumprir. E tudo passa, tudo se transforma. Tudo... menos eles.
Há algo de absurdamente fascinante na forma como a saga desta família se entranha no pensamento, e nem sempre é fácil apontar os motivos que fazem com que assim seja. Contada através de uma sucessão de pequenos episódios, aborda todas as situações com relativa brevidade. E, ainda assim, mais do que curiosidade insatisfeita, o que fica é uma impressão de intensidade. Além disso, dadas as circunstâncias e o... meio profissional em que alguns deles se movem, nem todos estes irmãos são propriamente do tipo que desperta uma empatia incondicional. Muito pelo contrário, todos têm momentos em que irritam solenemente. E, no entanto... No entanto, há algo de delicioso na forma como as suas aventuras - e desventuras, sobretudo - se sucedem, entre momentos dramáticos, caricatos e ocasionalmente emotivos.
Outro ponto que sobressai desta história de contrastes é que, entre a leveza dos episódios divertidos, o choque dos momentos mais violentos e a eterna ambiguidade moral de todas estas personagens, há também um reflexo do tempo e da sociedade em que estes irmãos se movem. A Grande Depressão e as suas consequências serve de pano de fundo a esta fase do percurso dos Centobucchi, e serve também de base a alguns momentos discretos - mas eficazes - de crítica social. Além disso, são as consequências desta grande crise que levam a algumas das opções dos protagonistas, pelo que este contexto contribui também para fazer avançar a história.
Ainda um último ponto sempre notável prende-se com o aspeto visual. Não é um livro de grandes cenários, ainda que eles surjam ocasionalmente, mas sim de expressões e de eloquência visual. As personagens falam tanto através dos diálogos como das expressões com que reagem aos acontecimentos. E tendo em conta o tipo de acontecimentos deste volume, algumas dessas expressões são particularmente esclarecedoras. 
Ah, e já agora. O último episódio é um belíssimo piscar de olho a uma história que todos conhecemos - e também uma boa lembrança de que nem todos os mafiosos são iguais. Nem mesmo quando são parecidos.
Somadas todas as partes, a impressão que fica é bastante semelhante à dos volumes anteriores: a de uma história com tanto de peculiar como de cativante, repleta de personagens tão fáceis de adorar como de odiar e com um contraste poderoso entre leveza e violência. Vale sempre a pena reencontrar estes curiosos irmãos.

terça-feira, 22 de março de 2022

Sabedoria Zen para Mentes Ansiosas (Shinsuke Hosokawa)

Às vezes, parece que a vida é um poço de ansiedades, de preocupações que se prolongam e multiplicam em outros motivos de stress. Tememos a perda, a morte, a necessidade de optar por um caminho em exclusão de outro, a forma como enfrentamos as dificuldades, o julgamento dos outros e a nossa própria visão de nós. O passado assombra. O futuro atormenta. Mas e se, em vez de preocupações e arrependimentos, vivemos simplesmente no presente, com a certeza de que cada momento é uma aprendizagem? É isso que estas pequenas lições de sabedoria sugerem. E a sua simplicidade ecoa na mente de forma particularmente eficaz.
É inevitável, ao falar sobre este livro, começar por referir a aura de serenidade que transborda de todo ele. Das ilustrações aos contrastes de preto e branco, sem esquecer naturalmente os espaços premeditados e a concisão precisa das palavras, tudo neste livro parece pensado para a tranquilidade, como um ponto de partida para a meditação. E sendo que uma das suas mensagens é que não importam os métodos, mas o que com eles se alcança, não deixa, ainda assim, de ser importante a forma como todo este livro é um método para a serenidade.
Ainda no aspeto estrutural, importa salientar a divisão por estações - do ano e da vida. A primavera, o verão, o outono e o inverno deste livro assumem duas facetas - a do seu reflexo na natureza e a das diferentes etapas da vida humana. São, aliás, dois aspetos que se entrelaçam num equilíbrio perfeito, com a contemplação das transformações da natureza a servir de base para a contemplação da transformação interior.
Finalmente, olhando para o cerne de tudo, que são as meditações contidas nestas bonitas páginas, sobressaem acima de tudo três pontos: a brevidade, que faz com que cada ideia seja resumida ao essencial e facilmente se entranhe no pensamento; a simplicidade, que, através de uma história breve ou de uma mera reflexão, permite transmitir a ideia sem elaborações desnecessárias; e a universalidade, pois praticamente tudo o que este livro apresenta é aplicável a qualquer vida, mais ou menos agitada, mais ou menos ansiosa, mais ou menos contemplativa.
Visualmente belo, abrangente e cativante na sua visão de vida e transbordante de serenidade até nos seus mais ínfimos elementos, o que fica é, pois, a imagem de uma meditação em forma de livro. E de uma bem necessária dose de tranquilidade para dias conturbados e mentes ansiosas. Muito bom.

segunda-feira, 21 de março de 2022

Histórias de Adormecer para Raparigas Rebeldes: 100 Mulheres Negras que Mudaram o Mundo

Embora haja ainda um muito longo caminho a percorrer no sentido de alcançar uma verdadeira igualdade, a verdade é que, se olharmos com atenção, as histórias de mulheres que deixaram a sua marca no mundo são mais e mais diversas do que à primeira vista seria de parecer. Mulheres de todas as idades, de todos os ramos e de todas as origens. Neste livro, encontram-se as histórias de cem mulheres negras que deixaram a sua marca no mundo tal como o conhecemos, seja na luta pela igualdade, nos desenvolvimentos científicos e tecnológicos, na arte, no desporto ou em muitas áreas. E algumas delas serão muito conhecidas, outras nem tanto. Mas uma coisa é certa: vale a pena conhecê-las a todas.
Parte do que esta coleção de livros tem de mais cativante é a forma sucinta mas inspiradora que tem de apresentar as diferentes histórias. É, apesar de tudo, um livro pensado para os mais novos - embora possa e deva ser lido por gente de todas as idades - e, assim sendo, a concisão dos textos torna-o mais apelativo, embora seja certo que haveria muito mais a dizer sobre qualquer destas histórias. Além disso, cada história é um exemplo, funcionando como inspiração, motivação e também base para reflexão. Afinal, todos sabemos que a discriminação continua a existir, e as histórias deste livro são uma bela demonstração de que essa discriminação não faz sentido.
Outro ponto marcante é, naturalmente, o aspeto visual, pois, como é característico desta coleção, também este volume junta à diversidade das histórias a diversidade de estilos visível nas ilustrações que compõem este livro. Cada história é acompanhada por uma ilustração da sua protagonista, e há uma grande variedade em termos de traço e de cor. Mas é interessante notar como toda esta diversidade converge numa harmonia coesa em que tudo pertence e tudo faz sentido.
Dada a estrutura comum de todas as histórias, e a relativa concisão de cada uma, fica ainda a impressão de que a melhor forma de apreciar este livro é aos poucos, lendo algumas histórias por dia e extraindo delas o exemplo e a inspiração necessárias para refletir e motivar. Ainda assim, não deixa de ser cativante lido de forma sequencial, até porque há histórias tão diferentes que a leitura nunca se torna repetitiva.
Tudo somado, a impressão que fica é a de um livro pensado para os mais jovens, mas capaz de cativar todo o tipo de leitores. Visualmente lindo, cheio de histórias interessantes e com uma mensagem inspiradora e motivacional, uma bela forma de conhecer estas mulheres que mudaram o mundo.

sábado, 19 de março de 2022

Herbário (José Guardado Moreira)

Uma natureza composta de elementos que se tornam também alquimia, transmutando-se em quase rituais de palavras para depois moldar novas paisagens divididas em elementos. Um ciclo de pequenas coisas que convergem numa teia coesa e complexa, feita de versos breves, de ritmos intensos e de um conjunto que é mais do que uma soma de partes independentes. Assim é este Herbário, olhar à terra, à água, ao fogo e ao ar - enquanto constituintes da natureza quotidiana e enquanto evocação de arcanos indescritíveis.
Provavelmente o aspeto mais marcante deste livro é o contraste entre a concisão da forma e a complexidade. do conteúdo. Composto maioritariamente por poemas breves, muitos deles sem grandes imposições estruturais, ainda que com um ritmo bastante forte (e particularmente visível lendo o texto em voz alta, mas não só), é o tipo de texto de que, à primeira vista, seria de esperar um certo grau de simplicidade, principalmente se tivermos em conta a presença dominante da natureza. Mas não é bem assim: lido sequencialmente, rapidamente desvenda uma teia mais ampla que, mais do que contemplação da simples natureza, é como que uma observação dos seus rituais alquímicos. É, aliás, esta a grande marca que fica deste livro: a fusão entre o natural e o arcano, entre o quotidiano e o ritual.
Não é propriamente uma poesia de cariz sentimental. Aliás, chega a ser difícil identificar um verdadeiro sujeito poético, pois os objetos, os elementos, as próprias palavras, parecem assumir a identidade da voz, mais do que um qualquer ser subjacente a elas. E assim, o registo destes poemas acaba por parecer um pouco mais distante, do ponto de vista emocional, compensando, porém, esse afastamento com uma aura de misticismo e de mistério particularmente cativante.
Feito de pequenas partes que formam um todo vasto, trata-se, pois, de certo modo, de uma alquimia poética, em que cada poema é um elemento na natureza composta pela totalidade do livro. Uma natureza concisa mas complexa, feita de paisagens simples e de evocações arcanas. Que pode não falar assim tanto ao coração, mas fala certamente à imaginação.

sexta-feira, 18 de março de 2022

Amor Atómico (Jennie Fields)

Rosalind Porter sempre teve uma mente brilhante, e esse potencial materializou-se na oportunidade de trabalhar num projeto de suma importância. Só que as consequências do Projeto Manhattan foram bem diferentes do que ela imaginava. O que supunha ser um trabalho para o bem transformou-se em arma de destruição, e os seus sentimentos de culpa, associados ao colapso da sua relação amorosa, deixaram-na em ruínas. Agora, passados cinco anos, Rosalind deixou a ciência para trás, mas Weaver acaba de reaparecer na sua vida, aparentemente com a intenção de recuperar o que perdeu. Só que traz consigo segredos perigosos, que põem a vida de Rosalind em perigo. E é esse mesmo mistério que faz com que o agente Charlie Szydlo, do FBI, entre também na sua vida, com intenções de a recrutar para uma missão perigosa, mas sem saber que está também ele a assumir um tipo diferente de perigo...
Parte da grande envolvência deste livro reside na forma como conjuga elementos vindos de mundos aparentemente incompatíveis para construir com eles uma história fluida e memorável. Tem rasgos de romance de espionagem, com a venda de segredos nucleares, as escutas, os agentes de sentinela e a sucessão de perigos e potenciais traições, mas tem também elementos de puro romantismo, rasgos de um humor cativante e, acima de tudo, histórias de superação e de autodescoberta muito poderosas. Charlie, Rosalind e Weaver são, cada um à sua maneira, personagens notáveis. São também bastante humanas, com as suas forças e vulnerabilidades, as suas realizações e fracassos e os fantasmas que persistem em assombrá-los. E é o facto de estas personagens serem tão completas que as torna também tão próximas - mesmo quando as suas ações são questionáveis.
Outro aspeto particularmente notável é que, embora tendo no seu cerne um certo núcleo de romantismo, a história está longe de se cingir à parte romântica. E também não se cinge à espionagem. Há traumas do passado, episódios da vida familiar, laços que se vão transformando e passos de crescimento pessoal. Há, em suma, muito a acontecer e em múltiplas facetas, sendo de destacar que, apesar de toda esta vastidão, a leitura nunca se torna difícil de seguir.
Finalmente, sobressai a voz da autora e a forma como entrelaça todos estes fios num enredo sempre cativante, repleto de momentos intensos e que culmina num final que, longe do expectável, se apresenta, ainda assim, como o mais adequado, tendo em conta o percurso das personagens. Além disso, deixa o suficiente à imaginação do leitor para ficar, tal como as personagens, entre a apreensão e a esperança, encerrando pontas soltas, mas deixando ainda um mar de possibilidades.
História de espiões e segredos, mas também de amor e de perda, trata-se, em suma, de um romance inesperado, cheio de intensidade, de emoção e, sobretudo, de superação. Maravilhosamente escrita e cheia de personagens memoráveis, uma belíssima história de amor... indivisível.

quarta-feira, 16 de março de 2022

Grande Turismo (João Pedro Vala)

Sentado na marquesa do consultório, à espera das temíveis palavras que o médico tem para lhe dizer, João Pedro Vala - narrador que é também autor, mas não exatamente, e é ainda protagonista de uma sucessão de vidas improváveis - dá por si a contemplar uma não muito longa vida inteira de fracassos. Sob o olhar das expetativas do mundo, carregando às costas uma vida que não reconhece muito bem e perdido na fronteira entre o real e o improvável, vai partilhando histórias em jeito de biografia intimista do que nunca aconteceu. E o que tem para contar... bem, é simultaneamente impossível e real, inconcebível e perfeitamente natural. Provavelmente um romance? Sim, provavelmente.
Se há algo que este livro nunca será é fácil de descrever. Porquê? Porque quase não há nada de linear em toda esta estranha viagem aos meandros da mente do narrador/autor/protagonista. Curiosamente, porém, é precisamente isso que o torna tão fascinante. Num constante esbater de fronteiras entre realidade e ficção, nenhuma identidade é assumida com solidez absoluta, nem mesmo a do enigmático João Pedro Vala desta história. E ora há momentos que parecem perfeitamente normais (pelo menos no início), ora há outros que, de tão improváveis que são, se tornam irresistíveis na sua peculiaridade. Veja-se, por exemplo, a ideia de ver a bola na internet em plena guerra colonial. Ou de um conjunto de aparentes rituais infantis que se tornam numa caçada muito séria. Ou ainda a alegada morte e ressurreição do autor/narrador/protagonista.
Tudo neste livro é feito de singularidades, desde os episódios inexplicáveis ao próprio registo do livro, com um sentido de humor também muito peculiar, pontuado por algumas referências a puxar para a nostalgia, e uma cadência nas palavras que parece ajustar-se à voz da... bem, da personagem, digamos assim. Mas o mais intrigante neste aspeto é a forma como, ao longo da leitura, vamos sendo transportados para a realidade do livro para nos vermos depois confrontados - e várias vezes - com a súbita lembrança de que há um autor a escrever estas coisas. Um autor que não dá voz apenas à sua personagem, mas também a outras capazes de emitir julgamentos sobre o seu percurso.
Ainda um último elemento curioso vem da teia de laços singulares que atravessa toda esta viagem. Não será de todo um livro sentimental, mas as ligações que persistem, as presenças que se repetem, acabam, ainda assim, por criar uma estranha sensação de proximidade. Mesmo quando as personagens não são propriamente do tipo que mais desperta empatia.
Tudo somado, o que fica é uma impressão de estranheza - mas daquele tipo de estranheza que se entranha, que fascina, que se grava na memória pela sua singularidade. E também de uma viagem marcante aos meandros de uma vida cativante e simultaneamente difícil de definir. Se vale a pena viajar por estas andanças? Oh, sim. Sem dúvida.

segunda-feira, 14 de março de 2022

Canción (Eduardo Halfon)

Descendente de um avô libanês que não era libanês, e que foi em tempos sequestrado por guerrilheiros, um escritor participa num evento no Japão também sob uma identidade libanesa que talvez não lhe pertença verdadeiramente. E essa presença no evento serve-lhe de ponto de partida para revisitar memórias: de uma infância de leituras de sina, militares assustadores e cartas de despedida que nunca o chegam a ser à posterior busca da história do avô através daqueles que o sequestraram. Pelo caminho, vão-se esbatendo as linhas do tempo e da realidade. Afinal, como dizia o avô do narrador, a Guatemala sempre foi um país surrealista. Porque não haveriam de o ser também os seus habitantes?
Um dos aspetos mais cativantes deste livro é a forma como, nas suas cerca de cento e vinte páginas, abrange vidas inteiras de complexidades e mistérios. A história do avô do narrador é, naturalmente, a presença dominante, mas expande-se para a história da sua família, para o contexto dos países por onde passou e, naturalmente, para a história daquele que nos conta a história. Claro que, sendo tão breve, vive tanto de sugestões como de explicações efetivas, e é certo que fica todo um mundo de perguntas sem aberto. Ainda assim, há um equilíbrio delicado entre o dito e o sugerido, o que é contado e o que fica à imaginação, que acaba por assumir a forma de um registo algo enigmático.
Também a própria voz tem as suas singularidades. Oscilando entre diferentes períodos da linha temporal, entre perspetivas mais próximas e breves momentos de pura enumeração de factos, forma uma estrutura que talvez pudesse ser descrita como fragmentária, na medida em que vai saltando entre pedaços de vidas. Mas não é bem isso, pois há uma coesão que se vai revelando aos poucos e a ligação entre todos os elementos acaba por se tornar bastante evidente no fim.
Ainda um último ponto a salientar prende-se com o título do livro, que é também nome de personagem, mas não do protagonista. Canción é, aliás, uma presença curiosa, pois dado o seu posicionamento na história, tem uma grande importância em certos desenvolvimentos. O papel mais marcante desta figura está, ainda assim, na forma como serve de elo de ligação entre as diferentes fases da história e entre os diferentes intervenientes, ligando passados distantes à persistência das memórias do narrador.
Breve, mas surpreendentemente complexo em todas as suas facetas; enigmático, mas com uma estranha envolvência que confere à leitura uma fluidez muito natural; e equilibrado na sua conjugação de revelações e mistérios, de inícios e fins de vida, do que persiste e do que vai ficando pelo caminho, trata-se, em suma, de uma leitura maior do que a sua dimensão em páginas. E de uma voz que se entranha quase involuntariamente.

sexta-feira, 11 de março de 2022

Monstress, Vol. 6 - A Promessa (Marjorie Liu e Sana Takeda)

A guerra apoderou-se do mundo, com tal violência e imprevisibilidade que até as linhas relativamente claras que antes existiam se desvaneceram por completo. No centro de tudo, continua Maika Meiolobo, alvo de praticamente todas as intrigas e dotada de um conjunto de singularidades que a tornam um poder difícil de igualar - ou de destruir. E à medida que o conflito vai alastrando, em intensidade e escala de destruição, Maika vai também tendo de tomar decisões difíceis, de aceitar a sua natureza e as escolhas insustentáveis que ela implica e de abrir portas a um certo nível de vulnerabilidade. Só que a vulnerabilidade é perigosa. Principalmente quando implica confiar nos aliados errados...
É difícil, ao sexto volume de uma série, encontrar coisas novas para salientar sem revelar involuntariamente algumas das surpresas do percurso. E, assim sendo, talvez o melhor ponto de partida para começar a falar sobre este livro seja referir que mantém em toda a sua glória as mesmas qualidades dos volumes anteriores. Visualmente, continuam a abundar os pormenores deslumbrantes, seja na indumentária, seja na construção dos locais, e é particularmente notável a forma como isto persiste num cenário que se vai tornando cada vez mais sombrio. Em termos de construção do enredo, mantém-se o ritmo de expansão, com novas intrigas, novas alterações no equilíbrio de poderes e novos confrontos e transformações a tornarem este mundo cada vez mais complexo. E quanto às personagens, quanto mais as conhecemos, mais se intensifica o impacto emocional - seja de empatia ou de aversão, de proximidade ou até mesmo de perplexidade, pois o que não falta nesta história são personagens cuja verdadeira posição continua a ser um mistério.
Com um mundo tão vasto, não só em termos de composição visual, mas também de complexidade das relações, dos pactos e das intrigas, é particularmente marcante a facilidade com que tudo parece entranhar-se no pensamento, mesmo havendo ainda uma imensidão de aspetos por explicar. Cada novo volume traz novas particularidades à tona - sobre as máscaras, sobre o poder de Maika, sobre profecias passadas e planos presentes e até sore as próprias origens deste mundo. E, ainda assim, todos eles elementos vão sendo assimilados de forma perfeitamente natural, o que significa que a vastidão do mundo nunca se torna excessiva para o ritmo dos acontecimentos.
E claro, no cerne de tudo isto, está uma protagonista complexa e fascinante, com tanto de poder insondável como de profunda vulnerabilidade. E, estando no cerne de uma teia de intrigas e de traições, está também no âmago dos momentos mais negros, a que se contrapõe, ainda assim, uma saudável dose de ternura e de humor que vem tornar tudo mais intenso e equilibrado.
Mantendo todas as forças do início da história, e expandindo-as gradualmente para algo cada vez mais vasto, cada volume desta série é, ao mesmo tempo, um reencontro e uma revelação. Este não foge à regra. Intenso, marcante, visualmente magnífico e emocionalmente devastador, transporta-nos para o seu mundo e deixa um pouco desse mundo dentro de nós. E isso é basicamente o melhor que se pode pedir a um livro.